27 de out de 2008

O pesadelo do assédio moral (1/4)

19/09/2008 - 11:42 - ATUALIZADO EM 25/09/2008 - 17:39
O pesadelo do assédio moral
Nos últimos dois anos, os processos por perseguição no trabalho se multiplicaram por cinco. Como entender – e evitar – o problema e por que a Justiça brasileira quer impedir uma “indústria das indenizações”
MARTHA MENDONÇA E MARIA LAURA NEVES. COLABOROU ISABEL CLEMENTE
3D Fábrica de Quadrinhos sobre ilustração de Quino

"As mãos da bancária carioca Viviane Barros, de 38 anos, ainda tremem quando ela fala sobre o assunto. Levanta a voz revivendo diálogos passados, alternando fúria e tristeza ao contar sobre os dois – longos – anos em que sofreu humilhações diárias no trabalho. O que começou com pressão por metas de vendas terminou em insultos e ironias que atropelaram sua auto-estima. Funcionária de um grande banco desde os 18 anos, Viviane foi escriturária, caixa e fazia trabalhos de gerência quando, em 2005, uma nova chefe assumiu sua agência. A partir daí, ela conta, sua vida virou um inferno. Era alvo de broncas e xingamentos, inclusive diante do público. Certa vez, foi acusada de desaparecer com algumas cédulas. O caso não foi levado adiante, mas causou-lhe vergonha e revolta. “Depois de 20 anos dedicados ao banco, não merecia isso”, diz. A chefe foi além. Viviane foi colocada em funções abaixo de sua qualificação (como cobrança por telefone) e isolada num setor que não era o seu. Entrou em depressão. Engordou 40 quilos – o que a fez ter de agüentar indiretas ferinas sobre seu peso. Por fim, foi demitida e praticamente expulsa do local de trabalho, não podendo levar sequer sua agenda de telefones. Na Justiça, ela conseguiu ser reintegrada, mas as humilhações não cessaram. Entrou com uma ação, ainda não julgada, por uma indenização de R$ 50 mil por tudo o que passou.

A história de Viviane é um típico caso de assédio moral, ou “terror psicológico no trabalho” – a terceira hipótese entre os processos por danos morais julgados no país. Segundo escritórios de advocacia nessa área, as ações desse tipo quintuplicaram nos últimos dois anos. Um levantamento do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mostrou que, apenas no primeiro semestre deste ano, 194 processos foram parar ali na última instância da Justiça trabalhista. O que chega ao TST é uma pequena amostra do total. Acadêmicos e cientistas estão atentos à gravidade do problema. Em um congresso mundial sobre o assunto, em junho, no Canadá, foi criada a Associação Internacional sobre Assédio no Trabalho, da qual os pesquisadores brasileiros fazem parte.

De acordo com a ministra do TST, Maria Cristina Peduzzi, para que um processo judicial por assédio moral se justifique é preciso que estejam caracterizados problemas psicológicos originados no ambiente de trabalho. O assédio moral acontece quando há uma situação de perseguição e humilhação proposital e repetitiva. Não deve ser confundido com ações esporádicas de maus-tratos e agressividade. É muito mais que uma descarga de estresse ou um problema de convivência (leia o quadro na terceira página da matéria). Visa a desestabilizar o empregado. “No começo, parecia apenas uma falta de sintonia”, diz a ex-bancária Viviane. “Mas, quando vi, já me achava um lixo: gorda, deprimida e sem força para virar o jogo”.

Há inúmeros tipos de perseguição. De uma hora para outra, o superior se torna indiferente e ignora a vítima, o que ela fala, suas idéias e atitudes. Se o chefe lhe dá alguma atenção, normalmente é para desprezar o que vem dela – muitas vezes diante dos colegas –, para constrangê-la ou ameaçá-la. Tudo é matéria-prima para a agressão: das características físicas às roupas da vítima. Quem assedia pode exigir tarefas além da capacidade da vítima.

Na família e nos relacionamentos também são detectados casos em que uma pessoa é subjugada por outra, assim como na escola – são os casos conhecidos em inglês como bullying, em que uma criança é isolada e atacada psicológica ou fisicamente por outras. “Entre marido e mulher ou entre pais e filhos, tratamentos desmoralizantes são capazes de gerar doenças psíquicas e até físicas”, diz o psicanalista Roberto Bo Goldkorn, autor de livros como Dormindo com o Inimigo eAssédio por Sedução (Editora Bertrand Brasil). É no trabalho, porém, que o assédio tem sido mais estudado. “A diferença é que nas relações de trabalho a finalidade quase sempre é compelir a vítima a sair”, diz Goldkorn. “Nas relações pessoais, ao contrário, o assediador não deseja expelir o parceiro ou o filho, mas reduzi-lo a uma submissão mórbida”.

André Valentim
CONSEQÜÊNCIAS FÍSICAS
A ex-bancária carioca Viviane Silva Barros afirma que as constantes humilhações no trabalho fizeram com que engordasse 40 quilos

O assédio “descendente” (do superior hierárquico para baixo) é o mais comum, embora haja outros tipos – o que vem dos colegas, chamado “horizontal”, ou o isolamento de um chefe por seus subordinados. As vítimas também têm um perfil-padrão: mulheres são maioria, seguidas dos homossexuais. “Pessoas com doenças crônicas ou deficiências físicas também são alvo fácil, assim como funcionários acima do peso”, diz o advogado paulistano Luiz Carlos Moro, que tem se especializado em ações desse tipo, em especial entre funcionários públicos, de onde vem mais da metade dos casos. “A pressão é maior porque, ao contrário da iniciativa privada, não há como demitir”.

Cada caso é único, mas há características comuns à maioria. O começo tem ares de brincadeira. É o tempo das pequenas ironias e olhares sarcásticos. Possíveis reações são respondidas pelo agressor com o tradicional “era só uma brincadeira”. A vítima até se pergunta: será que eu não tenho senso de humor? A seguir, vem o isolamento. Não se retribuem cumprimentos, não há tempo para dar atenção àquele funcionário, não há espaço para ele nas reuniões e decisões. “A vítima se vê apequenada e questiona sua competência”, diz a médica Margarida Barreto, especialista no assunto e autora da tese de mestrado Uma Jornada de Humilhações, realizada nos anos 90, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. " (continua)

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