Conselhos de Polônio a Laertes: uma despedida que continua a nos ensinar
Quando conheci Hamlet, uma passagem breve me conquistou de imediato. Não era uma das grandes cenas pelas quais a tragédia é lembrada. Era uma despedida: Laertes se preparava para voltar à França, Ofélia conversava com o irmão e o pai dos dois, Polônio, entrava para apressar a partida.
O navio esperava. Talvez por isso Polônio tenha dito tanto em tão pouco tempo. Em vez de um longo discurso de despedida, entregou ao filho uma pequena bagagem de conselhos sobre amizade, prudência, conflitos, dinheiro e integridade.
Voltei a essa cena dezenas de vezes. Levei-a também para fora do livro: conversei sobre ela com meus filhos, com amigos e com pessoas com quem trabalhei. Reconheço em Polônio um desejo que muitos pais conhecem bem: oferecer ao filho alguma orientação para os momentos em que ele terá de decidir sozinho — quando sair para a vida e tiver de enfrentá-la longe de nossos olhos.
Há algum tempo, compartilhei mais de uma vez essa passagem aqui na Oficina de Gerência. Ela continua encontrando leitores, e eu continuo encontrando nela motivos para pensar. Resolvi revisitá-la em reconhecimento ao interesse constante dos leitores do blog.
Desta vez, depois da cena, quero conversar pela primeira vez no post sobre o que esses conselhos podem significar em nossos dias.
Antes do texto, deixo o vídeo da cena. O áudio está em inglês, mas ajuda a perceber o ritmo e a urgência daquela despedida. Em seguida, vem a tradução de Millôr Fernandes, cuja vivacidade é parte do encanto desta leitura.
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Trecho de Hamlet, ato I, cena 3, de William Shakespeare, na tradução do grande Millôr Fernandes.
LAERTES: Não se preocupe comigo.
Mas já me demorei muito. E aí vem meu pai. (Entra Polônio.)
Uma dupla bênção é uma dupla graça.
Feliz por despedir-me duas vezes.
POLÔNIO: Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio, que diabo!
O vento já sopra na proa de teu barco;
Só esperam por ti. Vai, com a minha bênção, vai!
(Põe a mão na cabeça de Laertes.)
E trata de guardar estes poucos preceitos:
Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo.
Sejas amistoso, sim, jamais vulgar.
Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os na tua alma com grampos de aço;
Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume mal saído do ovo.
Procura não entrar em nenhuma briga; mas, entrando, encurrala o medo no inimigo.
Presta o ouvido a muitos, tua voz a poucos.
Acolhe a opinião de todos – mas você decide.
Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir, mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas.
O hábito revela o homem, e, na França, as pessoas de poder ou posição se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem.
Não empreste nem peça emprestado: quem empresta perde o amigo e o dinheiro; quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.
E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo.
Jamais serás falso pra ninguém.
Adeus. Que minha bênção faça estes conselhos frutificarem em ti.
LAERTES: Com toda a humildade, eu me despeço, pai.
POLÔNIO: Vai – que o tempo foge. Teus criados esperam.
Os conselhos de Polônio, lidos hoje
Polônio começa recomendando uma pausa entre o pensamento, a palavra e a ação. É um conselho simples, mas exigente. Quantas vezes uma frase dita no calor do momento cria um problema que poderia ter sido evitado? Hoje, essa pausa é ainda mais necessária: uma mensagem enviada em segundos pode chegar a muita gente e permanecer circulando muito depois que a irritação passou. Prudência, contudo, não é calar por conveniência. É pensar bem para falar com clareza quando a palavra for necessária.
Em seguida, ele aconselha o filho a ser amistoso sem perder a medida. Gosto dessa distinção. Podemos acolher as pessoas, cultivar a conversa e demonstrar afeto sem transformar toda aproximação em intimidade. Na vida pessoal e no trabalho, os limites bem compreendidos ajudam a preservar as relações. É uma habilidade reservada a poucos.
É nesse espírito que leio os conselhos sobre amizade. Polônio pede a Laertes que guarde junto de si os amigos que já passaram pela prova do tempo, mas que não trate cada novo conhecido como um amigo íntimo. Ele não condena as amizades novas; lembra que confiança se constrói. Quem administrou equipes sabe como isso é verdadeiro: contatos podem surgir depressa, mas é na convivência, sobretudo nas horas difíceis, que conhecemos o valor de uma relação.
Quando fala das brigas, Polônio começa pelo que considero essencial: não procurá-las. O conselho vale hoje para a família, para as redes sociais e para o mundo corporativo. Nem toda provocação merece resposta. Mas há situações em que recuar significa abandonar um princípio ou deixar alguém desprotegido. Nesses casos, enfrentar o conflito com firmeza é diferente de cultivá-lo. Talvez seja essa a leitura que eu faria hoje, sem tomar ao pé da letra a linguagem combativa do pai de Laertes.
Depois vem uma lição que sempre me interessou como gestor: ouvir muito, falar com critério e decidir por conta própria. Escutar não é transferir a responsabilidade da decisão. É reunir perspectivas que talvez não tivéssemos considerado. Um dirigente que só ouve a própria voz perde informações; um dirigente que nunca decide deixa os outros sem rumo. Entre esses extremos, há o trabalho difícil da boa gerência.
Os conselhos sobre a roupa pertencem visivelmente a outro tempo. Na sociedade retratada por Shakespeare, a aparência sinalizava posição e reconhecimento. Ainda hoje, a forma como nos apresentamos comunica algo, e convém respeitar as circunstâncias e as pessoas com quem convivemos. Mas eu não confundiria boa apresentação com valor pessoal. A roupa pode abrir uma primeira conversa; são as atitudes que sustentam a impressão que deixamos.
A recomendação sobre empréstimos também pede cuidado. Dinheiro pode complicar uma amizade, e ninguém deveria assumir compromissos sem pensar em como irá cumpri-los. Ao mesmo tempo, transformar o conselho numa proibição absoluta apagaria a generosidade que tantas relações exigem. Para mim, sua força está no alerta: quando dinheiro e afeto se encontram, clareza e responsabilidade tornam-se ainda mais importantes.
Polônio reserva para o fim a orientação que mais me acompanha: ser fiel a si mesmo. Não entendo isso como fazer sempre o que se quer, nem como recusar opiniões diferentes. Ser fiel a si mesmo exige conhecer os próprios valores, examiná-los e ter coragem de não abandoná-los por medo, interesse ou desejo de aprovação. No trabalho, essa fidelidade pode custar uma vantagem imediata. Na vida, pode exigir uma conversa difícil. Ainda assim, é ela que nos permite olhar para as próprias escolhas sem precisar inventar desculpas.
Há uma beleza especial em ouvir essas palavras dentro de Hamlet. Polônio está longe de ser um personagem infalível, e Shakespeare não nos obriga a concordar com tudo o que ele diz. Talvez por isso a cena continue viva: ela nos convida a pensar, não apenas a obedecer.
Esses conselhos são de valor incalculável. São verdades eternas que devem sempre estar em nosso dia dia
ResponderExcluirUm imenso golpe de sabedoria.
ResponderExcluirencontrei a frase que espero há muito tempo para tatuar em meu corpo.
ResponderExcluirencontrei a frase que espero há muito tempo para tatuar em meu corpo.
ResponderExcluirSe queres ser sábio, guarde estes conselhos no fundo de sua alma e, deles, não se aparte jamais.
ResponderExcluirexcelente post!
ResponderExcluirAwesome
ResponderExcluirThank you André, for your visit and comment. It will always be a pleasure to welcome you to the blog
ExcluirIndeed, this post is one of the most visited on the blog. You hit the target.