Ontem, dia 14 de julho, o universo do conhecimento corporativo se despediu de Oscar Motomura, fundador da Amana Key e um dos maiores pensadores de gestão, liderança e estratégia do nosso país e, reconhecidamente, do planeta. Para todos, ele foi um consultor genial; para mim, foi uma inspiração permanente que moldou não apenas a minha trajetória profissional, mas a minha postura diante da vida, um mestre, um mentor invisível e presente ao mesmo tempo.
Minha própria história tem um antes e um depois do curso APG (Programa de Gestão Avançada) da Amana Key. Aquela vivência de apenas uma semana, há muitos anos, depois complementada por vários outros cursos mais curtos, foi um verdadeiro ponto de inflexão. Ali, entendi que a verdadeira liderança vai muito além dos resultados financeiros e das métricas de mercado; ela passa, obrigatoriamente, pela ética, pela sabedoria e pelo impacto humano, dentro e fora da faixa corporativa.
O impacto dos ensinamentos de Motomura na minha vida foi tão profundo que ele se tornou presença constante por aqui, ganhando uma tag exclusiva no blog (clique aqui) para que eu pudesse registrar, comentar e espalhar suas reflexões sobre o futuro das organizações e da humanidade.
Oscar Motomura partiu, mas as sementes que plantou em cada executivo, empreendedor e líder que cruzou o seu caminho continuarão gerando frutos. Que possamos honrar sua memória praticando a gestão humanizada, consciente e transformadora que ele sempre ensinou e defendeu.
Obrigado por tudo, mestre. Sua sabedoria permanece viva entre nós
Para encerrar esta homenagem, transcrevo abaixo um dos seus textos mais célebres, profundos e que melhor sintetizam a filosofia que Oscar Motomura compartilhava na Amana-Key e no APG é o artigo "A Liderança Necessária".
Nesse manifesto, ele provoca líderes de todos os setores a irem além do modelo mental tradicional focado apenas em métricas, resgatando o verdadeiro significado da ética como "a escolha pelo bem comum" e lembrando que liderança é, acima de tudo, um ato de vontade e cidadania.
Todo cidadão bem informado tem uma noção clara dos problemas crônicos que temos em nosso país (na educação, na saúde, na segurança), que, por sua vez, estão presentes na raiz de muitas outras disfunções encontradas nos mais diferentes setores de nossa economia e de nossa vida em sociedade. Se sabemos quais são esses problemas críticos, por que não temos conseguido resolvê-los? Onde estão os líderes capazes de fazer diferença na sua erradicação? Se eles existem, por que não estariam atuando no que é efetivamente necessário?
Neste artigo, vamos pensar juntos sobre essas e muitas outras indagações, em busca de insights que nos conduzam a efetivas soluções para as equações que nós, como sociedade, temos a responsabilidade de resolver – até pelo legado que queremos deixar para as futuras gerações.
Vamos iniciar esta reflexão tendo como pano de fundo um grande paradoxo que existe em nosso país: temos um dos maiores PIB do mundo e, ao mesmo tempo, um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em torno da centésima posição dentre duzentos países. O que está gerando essa situação paradoxal? Excesso de líderes preocupados apenas com a maximização do PIB? Escassez de líderes preparados para atuar nas áreas ligadas ao bem-estar da população, nas quais há problemas crônicos? Falta de sensibilidade dos nossos líderes para perceber as necessidades mais profundas do nosso país? Ou o problema estaria no jeito pouco criativo, superficial e até negligente de lidarem com as necessidades da sociedade?
Afinal, qual seria a liderança necessária em nosso país para
eliminar as causas-raiz desse e de outros paradoxos com os quais temos
convivido há tanto tempo? E a que liderança estamos nos referindo? Que
necessidades precisaríamos atender com excelência para conseguir uma evolução
mais equilibrada do país? Comecemos identificando as nossas necessidades mais
evidentes (percebidas, grosso modo, pela maioria da população) e os aspectos
mais sutis em torno delas; as nossas necessidades menos evidentes, das quais
nem mesmo as pessoas nos principais postos de liderança e poder em nosso país
parecem ter consciência; e as nossas pseudonecessidades que, pela sua alta
demanda (mesmo que artificialmente gerada), acabam absorvendo muitos recursos e
muita energia de nossos protagonistas e líderes.
São as necessidades que estão na consciência de todos.
Falamos muito sobre elas. Formalmente, em reuniões. Informalmente, entre
colegas, amigos, familiares. Mas sempre superficialmente, sem nos aprofundar.
Raramente chegamos aos seus aspectos mais sutis, menos óbvios. Nesta parte do
artigo, a proposta é refletir sobre elas, levando em conta esses aspectos, que
podem estar passando despercebidos pela maioria, inclusive, dos nossos líderes.
Necessidade de ética e
confiança
“Sem ética, não é possível otimizar a economia.” Essa frase sintetiza muito bem a entrevista que fiz com Jeffrey Sachs, na época professor de economia na escola de governo de Harvard e hoje diretor do The Earth Institute da Columbia University, à frente do Projeto Hunger, em prol da erradicação da fome no mundo. Racionalmente, sabemos que a frase de Sachs faz sentido. Mas, no Brasil e em outros países, vemos economias operando muito abaixo do possível, exatamente porque estão longe de atuar, no setor público ou privado, com base na ética e na confiança. Na realidade, acontece o contrário: atua-se com base na desconfiança. Basta ver o “custo controle” no nosso país ou o custo que os controles representam em nossa própria organização.
Compreendemos a ideia implícita na frase de Sachs porque ela ressoa em nós. Imaginamos como seria o nosso país se não houvesse corrupção e todos fossem éticos, todos confiassem em todos (inclusive em nossas instituições), ninguém tirasse vantagem de ninguém e buscássemos acordos em que as partes ganham e a sociedade também. Ou seja, buscássemos atuar em nosso dia a dia visando melhorar o todo, o bem-estar de todos, da forma mais inclusiva possível.Gosto da definição de ética que vem da filosofia: “a escolha pelo bem comum”. A definição é simples, mas não deixa dúvida. Se a decisão, negociação, solução não for em prol do bem comum, não é ética
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