O Corporativismo do Fracasso: Ciúme que atrasa o futebol brasileiro.
(autor: Herbert Drummond)
A ironia atinge o ápice quando Vanderlei Luxemburgo surge como porta-voz
da resistência. Ele, que de fato teve seu momento de brilho no plano doméstico
nos anos 1990, representa justamente o marco inicial do descompasso do futebol
brasileiro com a modernidade europeia. Sua passagem pela Seleção, na virada do milênio,
foi abreviada não apenas pela perda de rendimento em campo, mas por
turbulências extra-campo que arranharam a liturgia do cargo. Ver alguém que foi
superado pelo tempo e cujas últimas passagens por grandes clubes foram
melancólicas, questionar a estatura de um tetracampeão da Champions League é, no
mínimo, um atrevimento histórico. O que fala ali não é o analista que presume ser; é a dor de
cotovelo de quem viu o bonde da história passar e hoje precisa gritar para ser
lembrado.
Na mesma trincheira, temos Romário. Como jogador, o
"Baixinho" foi um gênio indiscutível, uma lenda que brilhou no
tetracampeonato de 1994. No entanto, o gigantismo do Romário atleta
nunca se traduziu em profundidade intelectual ou capacidade de análise
esportiva fora das quatro linhas. Romário julga o futebol sob a ótica do
talento pessoal e do individualismo — justamente a mentalidade que faliu o futebol
coletivo do Brasil nas últimas duas décadas. Suas declarações ácidas contra técnicos estrangeiros, especialmente o italiano, agora, não carregam nenhum embasamento técnico; carregam apenas a marra de quem
acredita que o futebol moderno pode ser gerido com a mesma informalidade e o
mesmo improviso de trinta anos atrás. Spoiler: não pode. Não merece comentários sérios.
Essa ofensiva conjunta não é uma coincidência; é uma reação coordenada
de uma "reserva de mercado" assustada. Trazer Ancelotti significa
expor a nudez do nosso mercado de treinadores e analistas. Significa admitir
que o "país do futebol" parou no tempo em 2002. Enquanto nossos técnicos
locais e, consequentemente, as novas gerações de jogadores profissionais, se mantêm em uma espiral descendente de atualização, andando de marcha a ré, eles assistem,
impotentes, à invasão de profissionais estrangeiros, técnicos e jogadores — vindos da Europa e da América do Sul — que hoje dominam os principais clubes do
nosso próprio campeonato nacional. O pânico de perder o último feudo, a Seleção
Brasileira, é o que move essa cruzada do ressentimento.
O boicote a Ancelotti é o sintoma de um futebol que prefere morrer abraçado
ao seu orgulho ferido a aprender com quem está no topo. Se o Brasil continuar
ouvindo o coro dos ressentidos e dos ultrapassados, a Copa de 2002 deixará de
ser o nosso último título para se tornar uma peça de museu de um tempo que não
volta mais. É hora de decidir se queremos continuar sendo o país do "já
ganhou" nostálgico ou se queremos, finalmente, voltar a ser o país do
futebol de ponta.
O Abismo Estatístico
Para ilustrar o tamanho do descompasso histórico e técnico entre Ancelotti e Luxemburgo, e poderia ser qualquer outro, vale a pena confrontar
a linha do tempo e as prateleiras de troféus:
|
Período / Critério |
Carlo Ancelotti |
Vanderlei Luxemburgo (últimos 20 anos) |
|
Século XXI (2001 - Presente) |
Multicampeão Europeu: o único treinador a vencer as
5 grandes ligas europeias (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França) e
o maior vencedor da história da Champions League (5 títulos). |
Espiral Decadente: Acumulou passagens rápidas
por clubes médios e grandes do Brasil, sem relevância internacional e com demissões
frequentes por falta de resultados e defasagem tática. |
|
Última Conquista Relevante |
Champions League e La Liga recentes, mantendo-se no topo absoluto do
futebol mundial. |
Estaduais esporádicos e campanhas de meio de tabela. Seu último título
nacional expressivo foi há mais de duas décadas. |
|
Domínio do Espaço Doméstico |
Respeitado globalmente pelas maiores estrelas do futebol mundial
(incluindo os próprios craques brasileiros). |
Perdeu espaço no próprio futebol brasileiro para a comissão técnica
estrangeira (portugueses e argentinos) que hoje ditam as táticas no país. |
A rigor, esta discussão há muito deixou de ser
apenas sobre o nome de Carlo Ancelotti. O italiano virou o para-raios de um
embate civilizatório dentro do nosso esporte. O que está em votação,
silenciosamente, é a escolha entre dois modelos irreconciliáveis de gestão: de um
lado, o planejamento de ciclos longos, ancorado na estabilidade, no processo
científico e na blindagem de um projeto de trabalho; do outro, a velha ciranda
do imediatismo histérico, que exige resultados ontem e resolve crises
promovendo demissões sumárias e trocas de comando ao sabor do vento. Sabotar a
vinda de uma grife internacional é a garantia de que continuaremos operando na
lógica do remendo de curto prazo.
A
Mobilização dos Progressistas: Pelo Futuro do Futebol
Para romper essa barreira do atraso, é urgente
que a ala progressista do nosso futebol — composta por torcedores cansados do
mesmo roteiro, dirigentes com visão de futuro, jogadores conscientes e
profissionais de imprensa sérios — se mobilize. E essa mobilização precisa se
encorpar ao redor de vozes que carregam autoridade moral, técnica e histórica
indiscutíveis.
Precisamos do farol de lucidez de um Tostão,
que une a genialidade de quem já foi dono do mundo em campo à precisão cirúrgica
de suas crônicas; da sabedoria pragmática de um Luiz Felipe Scolari, que
conhece como poucos o peso real da camisa amarela e a importância da hierarquia
de um projeto; e do rigor analítico de jornalistas como PVC e André
Rizek, que se recusam a trocar o debate tático e estrutural pelo ruído
barato do corporativismo de cabine.
Conclusão:
A Escolha Entre o Futuro e o Museu
E, para que esse pacto da mediocridade
funcione, o corporativismo dos ex-profissionais encontra eco perfeito em uma
parcela da imprensa que vive do fomento ao caos. É o caso de Mauro Cezar
Pereira, cujo conhecido bairrismo e o hábito de criticar eternamente tudo e
todos funcionam como uma espécie de profissão de fé no mau humor; ou de Juca
Kfouri, um analista visivelmente ultrapassado no tempo e no espaço, cuja
acidez contumaz contra qualquer novidade nos faz perguntar: quando foi a última
vez que o vimos elogiar sinceramente alguma coisa ou alguém? Juntando-se ao
coro, temos ainda Walter Casagrande — cuja relevância intelectual na
análise esportiva evoca a clássica pergunta: "quem é?" Respondo: alguém que construiu sua carreira midiática à sombra do brilho eterno de Sócrates e do
romantismo da "Democracia Corintiana", mas cuja opinião técnica, hoje, goza de pouquíssimo
ou nenhum respeito em seu próprio meio profissional.
Se as forças verdadeiramente progressistas do nosso esporte — inspiradas pela lucidez de figuras respeitadas — não assumirem o protagonismo dessa narrativa contra essa barreira de ressentidos e profetas do apocalipse, a Copa de 2002 deixará definitivamente de ser o nosso último grande título para se tornar uma melancólica peça de museu de um tempo que não volta mais.
É hora de decidir se queremos continuar reféns do "já ganhou"
nostálgico e do rancor de cabine, ou se temos a coragem de, finalmente,
desenhar o futuro.
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