20 de out de 2008

Conversando com o inimigo (por Sandra Brasil)

Esta reportagem da revista Veja, assinada pela jornalista Sandra Brasil, é uma referência de informações nas campanhas contra a pedofilia. Hesitei em colocá-la no blog por dois motivos:
(1). É um texto longo, uma reportagem, elaborado para ser lido em uma revista e não em um blog.
(2). É um artigo bastante conhecido na internet. Publicado na Veja em julho deste ano, foi replicado em diversos sites e blogs.
Entretanto decidi que, apesar das limitações, eu o publicaria. Inteiro ou por partes? Dúvida sempre cruel para um blogueiro. E explico: é comum se ler em blogs mais visitados que os internautas não gostam de textos longos. Preferem o que eu chamo de "textos fast food". Eu concordo, até certo ponto. Baseio-me na própria experiência. Textos longos eu só os leio se identificar um interesse particular; então eu leio mesmo. Copio para meus arquivos, imprimo para releitura e hoje, por conta do blog, separo para compartilhar com os leitores e visitantes.
Classifiquei este artigo no campo do interesse geral e o publiquei na íntegra. A reportagem é excelente e os relatos - recheados de imagens e estatísticas - dão uma idéia geral dessa praga que infesta o cotidiano dos cidadãos do Brasil e do mundo inteiro, a pedofilia.
Nesta reportagem a jornalista - Sandra Brasil - focaliza a pedofilia pela Internet e conta casos escabrosos como, aliás, são todos eles. Por isto, recomendo a leitura integral e a análise dos quadros colocados ao final. Tenho certerza que ao término do texto cada leitor, além de ficar melhor informado sobre o tema, reforçará a disposiçao de contribuir, da maneira que puder, no combate a essa aberração da natureza humana.  

Conversando com o inimigo

Operações policiais expõem os métodos dos 
pedófilos para atrair crianças via computador


Sandra Brasil


(todos os grifos no texto são de autoria do blog)

Uma dezena de ações policiais nos últimos tempos tem chamado atenção para o crime monstruoso do abuso sexual de crianças, classificado genericamente como pedofilia. Na Polícia Federal, foram seis grandes operações nos últimos três anos, sendo a mais recente a Arcanjo, realizada em Roraima no começo de junho, na qual entre os oito presos havia dois empresários, um major da PM e o procurador-geral do estado, Luciano Alves de Queiroz, exonerado após a detenção. 

A Polícia Federal também prendeu em plena biblioteca do Ministério do Planejamento, em Brasília, o corretor de imóveis Gusmar Lages Júnior, 45 anos, que usava os computadores à disposição do público para enviar e-mails com imagens de pornografia infantil. Na Polícia Civil de São Paulo, um pavoroso acervo de imagens de computador foi apreendido com Márcio Aurélio Toledo, 36 anos, operador de telemarketing e pai-de-santo em um terreiro de candomblé, para onde atraiu boa parte de suas vítimas. 

Dono do site de relacionamento Orkut, um caminho pelo qual pedófilos têm circulado impunemente, o Google já abriu 3 261 álbuns e páginas privadas do site e concordou em liberar outros 18 330 à Comissão Parlamentar de Inquérito instalada em março para tratar do assunto. De janeiro a junho deste ano, a SaferNet Brasil, organização não-governamental que combate a pedofilia e a pornografia infantil, registrou 26 626 denúncias de ação de pedófilos, quase o dobro do total do mesmo período em 2007.

Na Polícia Federal, o número de inquéritos relacionados a esse tipo de crime saltou de 28, em 2000, para 165, no ano passado. Aumentou a pedofilia ou aumentou a ação da polícia? Ambas aumentaram, e o denominador comum é a internet – a rede tanto abriu um campo novo e prolífico para os pedófilos quanto expôs mais o tipo de violência que estes perpetram, possibilitando punições mais freqüentes. "Só neste último mês recebemos 3 000 denúncias, e a maior parte delas envolve a internet", informa Magno Malta (PR-ES), presidente da CPI do Senado.

.http://brasilcontraapedofilia.files.wordpress.com/2007/09/brasil-contra-a-pedofilia22.jpg

A pedofilia é um transtorno sexual – a atração por crianças – que há sessenta anos, sob o número F65.4, faz parte da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde. Quando praticada, transforma-se em crime que assombra as famílias: todos sabem que são parentes ou conhecidos próximos os responsáveis pelos abusos mais freqüentes. 

Nesta reportagem, tratamos de casos que ocorrem fora da rede familiar, em que o pedófilo é um predador sexual de longo alcance. O papel da internet nesse mundo foi, basicamente, o de facilitar o acesso a crianças e reunir em uma espécie de comunidade pessoas que, pela repugnância universal que seus atos despertam, só muito raramente tinham contato mútuo. 

"Na internet, o pedófilo tem a ilusão do anonimato e a sensação da impunidade", diz o presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares. Ele atrai suas vítimas em salas de bate-papo e sistemas de comunicação popularíssimos entre crianças, como o MSN e o Orkut. Usando apelidos infantis como "vanessinha10" e "thiago8", passa-se por criança. O terreno é fértil: em maio, pesquisa do Ibope/NetRatings constatou que, de 23 milhões de pessoas que acessaram 43 bilhões de páginas na internet, 2 milhões tinham entre 6 e 11 anos. 

Freqüentemente, o pedófilo se integra a sites fechados para troca de pornografia – cenas mais explícitas chegam a custar o equivalente a 150 reais, pagos com cartão de crédito internacional – e até de justificativas distorcidas para seu transtorno. "No Império Romano, era comum sexo entre adultos e crianças. Os imperadores tinham várias crianças para satisfazer suas vontades", diz um deles. "A internet estimula a ação do pedófilo porque é lá que ele encontra seus semelhantes", avalia Sérgio Suiama, coordenador do grupo de combate aos crimes de internet do Ministério Público de São Paulo.

Divulgação/Hospital Pérola Byington
"Bem feito": desenho de uma vítima 

A prisão de Márcio Toledo, em São Paulo, rendeu à polícia um dos mais aterrorizantes retratos da ação de pedófilos no Brasil com crianças brasileiras – apreensões de computadores em outras operações desvendaram cenas igualmente hediondas, mas a maioria provinha do exterior. Toledo fazia e oferecia sexo com crianças, em troca de relações com os interessados nas abominações, e compartilhava as imagens que obtinha. 

A polícia passou apenas quatro dias interceptando seus telefonemas. "Tínhamos autorização judicial para fazer escuta durante um mês, mas, na primeira oportunidade de uma criança ser violentada, nós o prendemos. Ele estava acompanhado de outro homem, a quem havia oferecido sexo com um menino de 8 anos", conta o delegado Ricardo Guanaes. "Tenho uma filha de 4 anos e outra de 5. Como eu explicaria para o pai do menino que ia ser violentado que eu sabia do encontro e não fiz nada porque precisava de mais provas?" Por provas entenda-se evidência de produção e distribuição de pornografia infantil, crime previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente, estupro ou atentado violento ao pudor, previstos no Código Penal. No Brasil, a posse de imagens e as conversas aliciadoras não são qualificadas como crimes. A CPI da Pedofilia encaminhou ao plenário do Senado um projeto de lei para mudar essa distorção, mas ainda não há data de votação.

O computador de Toledo continha cenas com dez crianças, mas não havia como divulgá-las. "Dependíamos da iniciativa de pais que soubessem que seus filhos tinham alguma relação com o sujeito", explica Guanaes. Apenas um se apresentou: um vendedor cujo filho de 9 anos freqüentava o terreiro de Toledo havia dois, levado pela mãe. O vendedor assistiu às gravações – ou ao que conseguiu ver antes de desmoronar – e identificou o menino numa cena em que era submetido a relações sexuais com dois homens. A polícia pôde indiciar Toledo a partir do seu depoimento, confirmado pelo filho, que está sob acompanhamento psicológico. "Márcio dizia que, se ele não fizesse sexo, a mãe morreria de câncer. Chegou a pegá-lo na escola para um encontro com um homem", disse o pai a VEJA.

http://www.capitalnoticias.com.br/Upload/Noticia/Imagem/PEDOFILIA_14190.jpg

Em casos de pedofilia fora da esfera familiar, é comum que os pais sejam os últimos a saber. "Os pais têm dificuldade de entender os sinais que os filhos passam. Se a criança tenta contar, eles duvidam dela. Não fazem isso por maldade, mas porque é difícil acreditar que uma pessoa tão próxima esteja fazendo algo tão cruel com alguém tão indefeso", diz a psicóloga Daniela Pedroso, 34 anos, que há dez anos atende crianças vítimas de violência sexual no Hospital Pérola Byington, em São Paulo. 

Em 2007, 805 meninas e meninos de até 12 anos foram encaminhados ao serviço, que recebe, em média, setenta novas crianças por mês e utiliza brincadeiras e desenhos no diagnóstico e no tratamento das pequenas vítimas. Apesar do estigma, ainda existe certa tolerância cultural em determinados meios, em especial quando as pequenas vítimas são muito pobres e os criminosos dispõem de algum tipo de poder. 

"No Brasil, a pedofilia anda nas colunas sociais, tem mandato, veste toga, tem patente, anda com a Bíblia e reza o terço. É um monstro pior do que o narcotráfico", alerta, consciente do peso de suas palavras, o senador Malta. O procurador-geral exonerado em Roraima chegou a ter três encontros com menores em um único dia. A polícia documentou sua ida a um motel com uma menina de 6 anos. É quase impossível ler os detalhes do depoimento da criança sem passar mal. Cadeia e execração social parecem pouco para os perpetradores desse tipo de crime, mas são os instrumentos de que a sociedade dispõe para puni-los. Sempre. 


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