30 de jun de 2008

A sabedoria de quem sabe...

Tive o privilégio de - quando diretor da Codevasf, entre 2003 e 2005 - participar de tres ou quatro reuniões interministeriais dirigidas pelo então ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura. Um homem notável. Visivelmente maior que a função que ocupava.
Sua linguagem é direta, gestos largos, uma permanente inquietação com tudo à sua volta e, principalmente, um enorme mix de simpatia e bom humor. Quero adiantar que não conheço pessoalmente o ex-ministro.
Não suportou a mediocridade que o cercava e pediu o boné antes do final do 1º Governo Lula. Quem o conhecia, mesmo de longe, não ficou nem um pouco surpreso.
Hoje ele, além de um forte empresário do agronegócio é presidente do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp, Campus de Jaboticabal.
Roberto Rodrigues é daquelas personalidades que causa admiração pelas múltiplas habilidades, intelecto privilegiado e capacidade de trabalho acima dos mortais comuns. É, antes de tudo, um homem do seu meio. Um líder, daqueles que você fica "louco de vontade" para trabalhar junto. A agricultura, o campo e assuntos correlatos são a sua especialidade e ele é craque nessa área. Sabe o que diz e o diz sem rodeios e sem frescuras. Sua opinião tem peso técnico e político no Brasil e no exterior.
Seu artigo, entretanto, fala sobre a experiência que a idade nos traz em contraposição e a teimosia que a arrogância dos experientes, às vezes, encerra. Se você lerem o artigo com atenção vão perceber que há,ali, um claro recado para alguém ou alguns que não estão sabendo se utilizar do bom senso que faz - ou pelo menos devia fazer - parte do kit que os cabelos brancos nos traz.
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Santo Alfonso tinha razão...
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"Dizem que velho é todo mundo com 20 anos mais que a gente, critério ótimo para flexibilizar a senilidade: nunca se chega a ela... Também se fala que velho é todo aquele que não começa nada novo de medo de não conseguir terminar. Essa idéia é interessante, porque explica "velhos" de 30 anos e "jovens" de 80, estes sempre inventando novidades, e aqueles, inertes ante os desafios.
É muito comum, no entanto, ouvir dizer que a velhice é mesmo uma grande porcaria, embora melhor que a alternativa... O importante é saber enfrentar o peso das primaveras, e a sabedoria para isso é fazer, em cada tempo, aquilo que pode ser feito.
Há muitos anos, uma amiga mais velha me disse que, com a idade, a gente vai "refinando" as características: quem é bom vai ficando melhor, quem é ruim piora; o mão-aberta dá tudo o que tem, o pão-duro nada oferece, e assim por diante.
Uma das conseqüências dessa agudização do temperamento é que, quanto mais velhas as pessoas vão ficando, menos vontade têm de conviver ou estar com aqueles que pensam diferente. As pessoas se tornam seletivas e tratam de conversar somente com quem têm sintonia de pensamentos e até de princípios ou posições políticas, religiosas, e assim por diante. A menos que seja para brincar, e aí o futebol é um bom tema.
Mas o ruim disso é que tal processo aprofunda o envelhecimento: quem não tem disposição para enfrentar o contrário, de partir para o contraditório, está simplesmente fechando a oportunidade de aprender o novo e, eventualmente, até de mudar de opinião e de posição sobre as coisas da vida.
Um ponto é claro: a única forma de evoluir é aprender, e ninguém aprende se fica apenas repetindo as mesmas "convicções". Aliás, esta é uma característica dos radicais de qualquer cor: se não se derem a chance de "entender os adversários", vão se tornando cada vez mais radicais, xiitas e, portanto, longe do senso comum e do equilíbrio. E produzem radicais do outro lado.
Resumo: não abrir a cabeça é receita para envelhecer mais depressa. O problema é que os maduros em geral não querem abrir a cabeça. E aí é que mora o perigo, nesse círculo vicioso. Por outro lado, também não é preciso ficar só procurando os contrários para conversar, na busca do tal crescimento. Mesmo porque, se entre os contrários estiver um radical, este em geral é muito chato. Todo radical é chato, porque se sente o dono da verdade e termina agredindo quem não pensa igual. Caso contrário, não seria radical.
De modo que é preciso ter bom senso, para chegar à verdadeira conclusão, e estamos falando de pessoas sexy, os "sexygenários": é fundamental estar sempre com a cabeça preparada para novas possibilidades, assim como o coração. Peito aberto e cabeça aberta permitem novas relações, e a velhice fica para depois. No entanto, nada de precisar falar com todos os "professores de Deus" que aparecem.
Em resumo, e de novo, tudo é uma questão de bom senso. Mas é preciso cultivar esse bom senso, correr atrás dele. Nisso, uma característica é essencial, sem a qual tudo o mais desmorona: paciência.
Afinal, santo Alfonso já dizia: "Para viver tranqüilo, ocorrem cinco coisas;
um copo de ciência;
uma garrafa de sapiência;
um barril de prudência;
um tonel de consciência
e um mar de paciência...
E paciência nem sempre é companheira da velhice."
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"Roberto Rodrigues, 65, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna."
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