11 de mai de 2008

"Crimes há, criminosos não há" - por Eliane Cantanhêde


Já disse antes e repito agora, que considero Eliane Cantanhêde a melhor colunista do jornalismo brasileiro. Assim, direto e reto. Leio tudo que ela escreve e muito de outros grandes colunistas. Ela é a minha preferida. Sei que não é (e nem poderia) ser uma uninimidade, mas é a minha opinião. Por isto, entre outras motivações, claro, estou transcrevendo sua coluna de hoje na Folha de São Paulo.
Não farei comentário sobre o artigo, mas recomendo que todos os visitantes do blog o leiam com muita atenção. Raras vezes um jornalista, em espaço de jornal tão exíguo, terá conseguido resumir o lamentável momento que o Brasil vive no que diz respeito à sua cidadania. Basta a lembrança da absolvição do mandante do covarde assassinato da missionária Dorothy Stang, para nos deixar, os brasileiros, envergonhados e dar razão à jornalista.

Crimes há, criminosos não há

Em março de 1998, as queimadas em Roraima evoluíram para o que se chamou de "megaincêndio do século", mas a primeira foto de capa dos jornais foi de uma agência estrangeira. Só aí a imprensa nacional tomou-se em brios e deu o devido destaque.
O Norte volta à pauta. O principal mais-que-suspeito mandante do assassinato da irmã Dorothy foi inexplicavelmente (ou não?) inocentado, para espanto geral e vergonha brasileira, reforçados pela informação da Comissão Pastoral da Terra de que, de 1971 a 2007, houve 819 mortes por conflitos agrários no Pará, mas não há hoje um só mandante preso. Crimes houve, criminosos não há.
A reserva Raposa/Serra do Sol também virou um palco de guerra, com fazendeiros e índios armados, as autoridades da região divididas, a polícia sem saber para onde (e de quem) correr, enquanto o Planalto finge que é pró-todos, e o Supremo não decide pró-ninguém.
E o que dizer dos mortos no naufrágio de um navio que transportava pessoas como gado, sem registros legalizados, dando de ombros para a fiscalização e até para as multas? Foram 45 (ao que se saiba) pessoas, 45 brasileiros mortos. E pode ter mais. Quantas embarcações estão irregulares? Quantos passageiros estão ao deus-dará?
Vimos, com todo o horror que o caso merece, uma menina de cinco anos ser espancada, esganada e jogada do quinto andar de um apartamento de classe média em São Paulo. A comoção não pára nunca. Mas uma menina índia de cinco anos foi morta por dois homens armados que invadiram sua aldeia no Maranhão, na segunda-feira, na calada da noite. E a comoção, se houve, durou um dia, talvez algumas horas.
O Brasil é maior do que sua mídia, do que sua imprensa. Maior do que São Paulo, Rio, Brasília. Maior do que PT e PSDB. Maior do que Lula, Dilma, Agripino e dossiê. Mas continua um gigante sonolento quando quem sofre é o pobre, a periferia. Acorda, Brasil! (elianec@uol.com.br)

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