16 de abr de 2011

Ciência e Fé não são antagônicas para Marcelo Gleiser e Frei Betto.

Vejam só a frase com a qual o célebre cientista brasileiro Marcelo Gleiser inicia seu artigo semanal dos domingos na Folha de São Paulo (esse foi publicado em 20 de março p.p.):
  • "Conversas sobre ciência e religião, em geral, terminam em briga. Mas não deveriam. Talvez seja essa uma das lições mais importantes que Frei Betto e eu queremos passar."
O artigo é um dos melhores que já li - e foram muitos - desse genio da raça que tanto orgulha os brasileiros. Falar com simplicidade e mais que isso escrever um livro sobre o tema do eterno conflito entre ciencia e religião, sendo ele um homem das ciências, deve ter sido uma aposta, mas Gleiser parece que é movido a desafios.

Quem lê seus textos e conhece um pouco suas idéias percebe que ele não tem medo de errar e pelo conhecimento que acumulou fala e escreve com um nível de comunicação que espanta quem não o conhece.

Aqui também ele nos provoca e instiga apresentando seu novo livro que tem o titulo de "Conversa Sobre a Fé e a Ciência" .  Leia o que ele pensa a respeito.


São Paulo, domingo, 20 de março de 2011

Conversa Sobre a Fé e a Ciência

Os caminhos da razão e do espírito são um só: a busca por significado em um mundo cheio de mistérios

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Marcelo Gleiser
Na semana que vem sai meu novo livro, em parceria com Frei Betto e com intermediação de Waldemar Falcão, "Conversa Sobre a Fé e a Ciência", pela Nova Fronteira. Temos alguns eventos no Rio e em São Paulo, de que espero participar via teleconferência, aproveitando os benefícios de nossa era digital.

Conversas sobre ciência e religião, em geral, terminam em briga. Mas não deveriam. Talvez seja essa uma das lições mais importantes que Frei Betto e eu queremos passar.
Reconheço que somos dois exemplos um pouco alternativos. Eu, como cientista, mantenho uma posição de respeito pela religião. Frei Betto, como pensador político e teólogo cristão, mantém uma posição aberta em relação à ciência. Começamos a conversa sem nos conhecermos e terminamos amigos.

Frei Betto concorda comigo que é absurdo fechar os olhos para os avanços da ciência, negando suas descobertas. Concorda, também, que a religião não deve ser usada fora de seu contexto, especialmente como um substituto da ciência.

Usar a Bíblia como texto científico, tentar extrair de sua narrativa simbólica fatos sobre o surgimento do Universo e da vida, é retornar ao obscurantismo da Idade Média. Por outro lado, concordamos plenamente que a ciência não se propõe a atingir uma verdade "absoluta".

Verdades dependem de quando são formuladas, ou seja, do contexto histórico em que são buscadas. Por exemplo, para os gregos, era "verdade" que a Terra era o centro do Universo; até o fim do século 18, era "verdade" que o Sol era o centro do Universo; até 1924, era "verdade" que a Via Láctea era a única galáxia no Universo. Com o avanço da ciência, essas verdades foram substituídas por outras.

Apesar de não haver dúvida de que certos fatos científicos permanecem inalterados com o passar do tempo (por exemplo, as leis de Newton), chamá-los de "verdades" talvez seja imprudente.
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A ciência é uma narrativa que se ocupa do mistério, do não saber. Ela não tem capítulo final. Seu foco não é a busca pela verdade, mas por uma descrição do mundo que esteja de acordo com nossas observações.

Por outro lado, as religiões organizadas, com seu dogmatismo intransigente, distorcem o real sentido da fé. Nisso, Frei Betto e eu também concordamos plenamente (para ver no que mais concordamos e no que discordamos, é preciso ler o livro).

No cerne da religião, no ato de devoção religiosa, encontramos a espiritualidade pura, individual, que tece uma relação profunda entre o homem e o Universo e entre o homem e a sua consciência.

Frei Betto menciona Santa Teresa D'Ávila como alguém que alcançou um nível exemplar de transcendência pessoal e de comunhão com o divino. Aprendi muito durante nossa "conversa" e saí admirando meu interlocutor ainda mais.

Vejo a ciência, no aspecto mais puro e humano, como uma busca por transcendência, em que o espírito humano se une ao mundo natural para criar novas formas de pensar a nossa existência e, por meio da tecnologia, para criar expressões materiais dessa comunhão. Sob esse prisma, os caminhos da razão e do espírito são um só, simbolizando a essência do ser humano, que é a busca por significado num mundo cheio de mistérios.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"


Animated Gif Arrows (116)Marcelo Gleiser e quatro colegas (KC Cole, Adam Frank, Stuart Kauffman e Ursula Goodenough) criaram um blog sobre ciência e cultura, hospedado no site da National Public Radio. O nome do blog "13.7 Cosmos and culture" refere-se à idade estimada do universo: 13,7 bilhões de anos. 


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