O poder posto à prova
Ao longo de seus 19 anos, de 2007 a 2026, a Oficina de Gerência tem preservado uma linha editorial que evita a política partidária e procura tratar temas controversos com espaço para reflexão e diálogo.
Entendo a Oficina como um lugar de reflexão
sobre a arte de conduzir — o trabalho, as relações e a própria vida. A gerência
é sua porta de entrada, mas seu olhar alcança muito além dela: experiência,
cultura e reflexão para conduzir melhor a vida.
Por que faço essa apresentação? Porque este comentário poderá provocar reações de um lado, do outro ou de ambos. Entretanto, sinto-me no dever de não me omitir diante das falhas na condução da vida pública que, a meu ver, vêm marcando este processo eleitoral e repercutindo em todas as camadas da sociedade.
Escrevo como cidadão que procura compreender o
exercício da autoridade e suas consequências. Fiz minha escolha, vou publicar:
Quando a
autoridade perde o rumo
Acompanhar a vida pública tem exigido
resistência ao espanto. Minha inquietação cresce quando o debate sobre
propostas cede espaço aos confrontos pessoais e às disputas entre autoridades.
Decisões e resoluções passam a ser recebidas como ataques, vitórias ou
retaliações. A pergunta sobre quem venceu sufoca outra: o que isso representa
para o país?
Na minha experiência de gestão, aprendi que
ocupar um cargo não assegura capacidade de liderança. Liderar exige
discernimento, responsabilidade e disposição para aceitar limites, corrigir
erros e responder pelas próprias escolhas.
Se cada recuo é humilhação e cada crítica é
afronta, a instituição corre o risco de ficar subordinada ao orgulho de quem a
representa.
A política mobiliza esperança, medo e
indignação. O problema começa quando essas emoções determinam quais regras
merecem respeito. Aceitamos dos aliados aquilo que condenamos nos adversários?
Defendemos a autonomia institucional somente quando suas decisões nos
favorecem?
Nesse uso conveniente dos princípios, reconheço
o vale-tudo. Autoridades têm deveres que ultrapassam preferências e
ressentimentos. Quando empregam o poder para alimentar disputas, desgastam
também as instituições pelas quais deveriam responder.
A democracia exige respeito às regras,
fiscalização do poder, possibilidade de alternância e reconhecimento da
legitimidade dos adversários. Esses compromissos são postos à prova justamente
quando nos contrariam.
A polarização exacerbada leva esse conflito para dentro de
casa e dos círculos de amizade. Quando a discordância política se transforma em
hostilidade e ódio, familiares se afastam, amizades se rompem e conversar passa
a significar confrontar. Podemos sustentar convicções firmes sem reduzir uma
pessoa ao voto que ela declara. Preservar essa capacidade de convivência também
é uma responsabilidade democrática.
A
informação como campo de batalha
O cidadão tenta compreender os acontecimentos
em meio à competição por sua atenção e adesão. Essa disputa atravessa grandes
veículos, mídias progressistas ou conservadoras, influenciadores e campanhas.
Nenhuma dessas identidades assegura compromisso com a verdade.
A desinformação inclui mentiras, mas também
omissões decisivas, imagens fora de contexto e manchetes que sugerem conclusões
não sustentadas pela reportagem.
Quando um veículo exalta determinada conduta e
condena outra semelhante conforme seu protagonista, precisa explicar a
diferença de critérios. Sem isso, compromete sua credibilidade.
Campanhas que exploram falsidades,
acontecimentos fabricados, medos e convicções religiosas merecem a mesma
fiscalização. A fé participa legitimamente da vida pública; sua exploração para
tornar um candidato imune à crítica precisa ser questionada.
Essa vulnerabilidade não se limita à falta de
instrução. Pessoas escolarizadas também acreditam em versões convenientes.
Todos precisamos verificar aquilo que confirma nossas preferências.
Um pacto
necessário — mas conduzido por quem?
Considero necessário um debate nacional sobre
esta experiência eleitoral: um esforço de concertação que estabeleça
compromissos sobre limites da autoridade, transparência e responsabilidade na
comunicação.
Mas conheço a facilidade de propor soluções
ideais e inviáveis. Quem convocará esse pacto? Quem aceitará ceder? Como
acompanhar seu cumprimento?
Seriam necessárias lideranças públicas e
privadas e organizações de alcance nacional capazes de reunir pessoas que
discordam profundamente. Tenho dificuldade em identificar lideranças com
credibilidade entre campos diferentes para essa tarefa.
Um começo verificável seria cobrar
compromissos específicos: corrigir informações falsas, explicar decisões,
prestar contas e aplicar aos aliados os critérios exigidos dos adversários.
Procuro transformar minha indignação em
reflexão sobre os graves sinais de má administração, má gestão e má gerência na
vida pública. Essa discussão precisa alcançar também nossas próprias
convicções.