O Pecado de Enxergar Primeiro
Por Herbert Drummond
Tem um fantasma assombrando os bastidores desta Copa de 2026. Ele não entra
em campo, não calça chuteira e não bate falta. Ele veste terno, fala com aquele
tom professoral de quem é dono da verdade e está sofrendo de uma dor terrível:
a dor de ter perdido o monopólio da relevância.
Antes de iniciar, quero dizer que não tenho
"procuração" para falar em defesa da CazéTV e nem é esse o propósito.
Meu objetivo com este post é defender o direito do torcedor — e me incluo nesse
grupo — de acompanhar os jogos da Copa sem censura e se divertindo, exatamente
como são as transmissões da turma do Casimiro.
Estou falando dessa campanha barulhenta e visivelmente
orquestrada que resolveram levantar contra a CazéTV. De repente, os barões da
mídia tradicional (notadamente a esportiva) viraram paladinos da moralidade e
descobriram uma súbita preocupação social com os anúncios de apostas esportivas
no streaming, as chamadas bets. Apontam o dedo para a internet como se a tela
da TV aberta e os intervalos do horário nobre não estivessem igualmente
entupidos, dia e noite, pelo mesmíssimo dinheiro dessas plataformas.
Vamos deixar o verniz de lado? Não se trata de uma
cruzada em defesa do cidadão ou contra os malefícios que o vício em jogos traz;
é o clássico linchamento do pioneiro, a mera negação do novo. É inveja
comercial pura e simples, briga por dinheiro. O "crime" da CazéTV não
foi colocar patrocinador na tela; foi ter a audácia de quebrar a banca e mudar
a fórmula do espetáculo.
O mercado tradicional cometeu o erro fatal de ignorar a
história. O mundo dos negócios está cheio de cadáveres corporativos de gigantes
que achavam que eram eternos. Vejamos, para ilustrar o argumento, alguns
exemplos clássicos: a Kodak jurou que as câmeras digitais eram um brinquedo
passageiro; a Nokia olhou para o primeiro smartphone e não levou a sério; a
Enciclopédia Britannica achou que a internet jamais substituiria seus pesados
volumes na estante; e as cooperativas de táxi riram do primeiro protótipo do
Uber. O final dessa história a gente já conhece.
A mídia tradicional é a nova Kodak do futebol. Tiveram
o mesmo tempo, as mesmas pistas de que o público telespectador queria outra
coisa — queria diferença, novidades. Preferiram sentar na própria arrogância e
agora tentam recuperar espaço detonando quem apostou nos novos tempos.
Vivi, como profissional, os bastidores da mídia
esportiva entre 1963 e 1971 e continuei acompanhando este universo de perto.
Posso atestar: o que mudou de lá para cá foi apenas a tecnologia de transmissão
— o satélite, o cabo, o HD. Mas a alma, os métodos e os jargões da TV clássica
e do rádio continuaram exatamente os mesmos, presos num purismo estéril de
estúdio plastificado.
O público simplesmente cansou desse engessamento, e já
faz tempo. Ninguém quer mais ser um mero joguete em duelos repetitivos de
audiência, um número frio de IBOPE, obrigado a ouvir analistas que usam suas
pranchetas para ditar regras e teorizar sobre esquemas e estratégias pouco
inteligentes e quase ininteligíveis.
A grande mídia tenta rotular quem migrou para o
streaming como uma massa de "jovens alienados". Erro crasso. Esse
grupo crescente só quer resgatar o prazer da transmissão viva, divertida e
moderna na sua essência. No fundo, são os legítimos herdeiros do radinho de
pilha que ressurgem.
Toda aquela resenha, a piada interna, a corneta e a cumplicidade que a turma do Casimiro entrega hoje no YouTube é a evolução direta da atmosfera que grandes narradores do rádio, como Oduvaldo Cozzi, Fiori Gigliotti, Valdir Amaral, Jorge Cury, José Carlos Araújo e, mais recentemente, Osmar Santos, criavam antigamente.
O rádio falava ao pé do ouvido do torcedor,
era visceral, humano e vivo. A TV engessou o futebol com transmissões frias,
assépticas e "bem-educadas". Quis imitar o rádio, mas nunca
conseguiu. A CazéTV trouxe de volta a conversa de bar, incluindo alguns
palavrões inofensivos que fazem parte do verdadeiro clima dos estádios.
Podem continuar chiando e inflando discursos moralistas de conveniência. Os herdeiros do radinho de pilha já decidiram onde estão a emoção e a autenticidade. O caminho de volta para a caverna do formato antigo não existe. A grande parcela que realmente ama a emoção do futebol quer estar com o Cazé, com a turma dele e com o futebol de verdade.
Que venham (e virão...) mais Cazés no universo das transmissões esportivas, é isso que o público quer. A questão das Bets, é outro assunto.

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