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30/07/2020

Se quiser ser "autêntico", pague o preço.


"Apesar de todas as vozes que encorajam as pessoas a “viverem uma vida autêntica, se casarem com parceiros autênticos, trabalharem para um chefe autêntico, votarem num presidente autêntico”, ser verdadeiro geralmente é um erro."  
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Coloquei os olhos em um antigo artigo, guardado nos arquivos da Oficina de Gerência, e me chamou a atenção o título - "Prezar pela autenticidade pode ser uma cilada".  Sugere uma crítica (e dura) no precioso conceito de "ser autêntico". O que é isto? Perguntei-me, curioso, referindo-me ao artigo que não havia lido ainda. O texto foi extraído do New York Times e o autor é Rob Todd, colunista e editor do jornal.  
Ao conhecer o pensamento dele lembrei imediatamente de um monte de pessoas que conheço e não perdem a oportunidade de se auto rotularem como "autênticas". Gostaria que eles e elas pudessem ler o texto abaixo. 
Estou há muitos anos, muitos mesmos, exercendo cargos de gerência e gestão; meu foco sempre foram as pessoas. Trabalho sob o princípio de que os recursos humanos são a matéria prima de quem dirige e gerencia. Devo confessar que, conforme minha vivência e experiência foram aumentando, fui procurando me afastar e evitando trabalhar – na medida do possível – com aquelas pessoas rotuladas de "autênticas". 
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Outro lado da mesma moeda.
A questão do ser humano autêntico (clique no link) é polêmica e controversa. Se pesquisar na internet (Google – 91.7000.000 links)) vai perceber que existe muito material que aponta, como positivo, "ser autêntico"; principalmente considerando que significa ser cem por cento verdadeiro. Outros artigos, entretanto, criticam essa característica de alguém ser autêntico, rotulando-a - entre outras coisas de - como buscar ser diferente, personalista e egocêntrico.  
Por esse simples "passeio" nos links do Google percebe-se que o tema levanta polêmica e das boas. Não vou entrar nela.  
No mundo corporativo, aprecio um bordão que diz: "Se alguém pedir para você ser sincero... Não acredite!"  
Parece ser algo muito duro de pensar, não é mesmo? Parece dizer que a sinceridade (aqui como característica de autenticidade) não é bem vinda porque remete à coisa falsa, não verdadeira. Todavia, quando entendi a sinuosidade do conteúdo do chavão, assumi que embora sendo algo maquiavélico, exagerado, tem uma boa dose de realidade no "jogo da vida". Adotei a atitude e não me arrependi. Isso quer dizer que não peço a ninguém para - naquele tom de confidência - ser "sincero” comigo.  
Por outro lado, também aprendi que quando puder e tiver que ser sincero, simplesmente serei; sem que alguém necessite me pedir ou me  sinta obrigado a sê-lo. Em diversas ocasiões paguei "preços altos" e perdi relacionamentos por conta desse comportamento; e também me rotularam, em ocasiões assim, de ser... autêntico! 
Porque ser Autêntico causa Espanto ? - Vida Real da Sam
Um lado da moeda.
O texto (abaixo) do NYT é excelente porque coloca a questão no foco exato, pelo menos assim o entendi. O tema, embora universalista, cabe bem no argumento de quem se dedica a discutir as coisas do mundo corporativo. Por isso o coloco aqui na Oficina. 
Fecho o assunto reafirmando que não acho que ser autêntico, no sentido de dizer o que pensa custe o que custar; ou comportar-se à margem dos padrões sociais de forma deliberada seja um bom caminho para se ter sucesso na vida seja corporativa ou social. Ah bem! Se a pessoa não almeja o êxito como ele é configurado em nossa sociedade, tudo bem. O livre arbítrio está aí para isso mesmo. 
Atenção, não confundir, por favor, ser autêntico com ser original. (mas aí é assunto para outro momento).
Como diriam os sábios, "Nem tanto ao mar, nem tanto à terra". Ser sincero consigo mesmo é a chave para se viver bem e alcançar seus resultados positivos. Todavia, ninguém quer saber das "verdades autênticas" de ninguém. 
Para as pessoas (jovens principalmente) que ainda aceitam alguma influência, ensino que, como diz o título do post, ser um "autêntico não é para quem quer, é para quem pode!"
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Prezar pela autenticidade pode ser uma cilada

O que é preciso para encontrar o seu verdadeiro eu? Alguns alertam que é um eu a ser superado ao invés de almejado (Filippo Massellani para The New York Times)


Autor - ROBB TODD

A autenticidade pode ser uma das mais valiosas moedas em circulação. Os “millenials” a buscam nas redes sociais, feito políticos em campanha. Mas para viver uma boa vida — ou ganhar uma eleição — provavelmente o melhor é não ser quem você realmente é.

“Estamos na Era da Autenticidade, na qual ‘seja você mesmo’ é o conselho definidor para a vida, o amor e a carreira”, escreveu Adam Grant, professor da Universidade da Pensilvânia, no “New York Times”. “Autenticidade significa eliminar a distância entre o que você acredita firmemente por dentro e que você revela ao mundo exterior.”

Mas ele aconselha não fazer isso.

Apesar de todas as vozes que encorajam as pessoas a “viverem uma vida autêntica, se casarem com parceiros autênticos, trabalharem para um chefe autêntico, votarem num presidente autêntico”, escreveu ele, ser verdadeiro geralmente é um erro.

“Todos nós temos pensamentos e sentimentos que acreditamos serem fundamentais para nossas vidas, mas que é melhor que não sejam ditos.”

Segundo ele, a sinceridade, em vez da autenticidade, é um objetivo melhor, porque as pessoas só se importam realmente “que você seja coerente com o que sai da sua boca”.

Donald Trump foi autêntico ao comer tacos para comemorar o 5 de maio, data cívica da comunidade mexicana nos EUA? E o frasco de molho picante que Hillary Clinton diz manter na bolsa, como Beyoncé?

“Estamos tão acostumados a ver os políticos afinando cuidadosamente suas personalidades ‘autênticas’ que qualquer coisa que pareça permitir uma identificação provavelmente é identificável demais para ser verdade”, escreveu Jennifer Szalai no “NYT”.

Ela salientou que a autenticidade está sujeita ao contexto da época em que vivemos.

A autenticidade foi reimaginada como uma coisa bonita que pode ser encontrada com um pouco de busca interior profunda. Szalai escreveu que a autenticidade se tornou desejável, “e desejável significa comercializável, especialmente numa sociedade tão implacavelmente comercial como a nossa”.

O atual mercado da autenticidade alimenta as vendas de livros de autoajuda e de praticamente qualquer coisa que seja descrita como “personalizada”.
Nenhuma palavra serve tanto como um alerta de que o produto à venda não vale o que custa, a não ser que seja um terno de alfaiataria.

“É parte do golpe da autenticidade”, disse ao “NYT” Paul Riccio, que dirigiu um vídeo satírico sobre a água “personalizada”. “Chamar algo de personalizado automaticamente permite que você aumente seu preço em US$ 50 (R$ 160).”

O mesmo golpe também beneficia vários livros de autoajuda. Textos antigos voltam a ganhar popularidade porque muita gente está sedenta por conhecimento. Mas essas traduções frequentemente são mal apropriadas e mal interpretadas.

“Às vezes as pessoas veem o taoísmo como uma forma de ‘ajudar a se encontrar e a viver bem no mundo’”, disse Michael Puett, professor de Harvard, ao “NYT”.

“Mas essas ideias não dizem respeito a olhar para dentro e se encontrar. Dizem respeito a superar a si próprio. São, de certa forma, a antiautoajuda.”

A verdade nem sempre é um lugar bonito. Puett alertou que, nessa busca, muita gente acaba encontrando algo a ser superado ao invés de abraçado: um tumulto interno decorrente de hábitos ruins. Para a maioria de nós, seria melhor alterar o nosso comportamento e nos concentrar mais em como interagimos com os outros.

Grant concorda que deveríamos nos preocupar mais em como nos apresentamos e como aspiramos a ser o que dizemos ser.

“Ao invés de mudar de dentro para fora, você traz o exterior para dentro”, escreveu ele, salientando: “Ninguém quer ver o seu verdadeiro eu”.


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