sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Mulheres x Machismo na Selva Corporativa

 

Mulheres contam como enfrentam machismo no mercado de trabalho

Profissionais lidam com preconceito desde o começo da vida profissional

Vitoria Pereira

SÃO PAULO

Mulheres estão ganhando cada vez mais espaço em profissões antes dominadas por homens, como na área de tecnologia da informação, nos cargos de médicos neurocirurgiões e no setor automobilístico.

Apesar de avanços recentes, elas ainda enfrentam preconceito e relatam que, muitas vezes, precisam mudar seus comportamentos para serem ouvidas e valorizadas.

Jessica Machado, 27, desenvolvedora no Banco Inter, enfrentou machismo no ambiente de trabalho e conta que, às vezes, precisava falar alto para ser levada a sério.

Jessica Machado - Carreiras

Jessica Machado, 27, desenvolvedora no Banco Inter

Apesar de as mulheres terem mais diplomas universitários que os homens, elas representavam apenas 37,5% dos cargos gerenciais em 2019, segundo levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgado no ano passado.

Elas também ganhavam menos. Enquanto o rendimento médio mensal dos homens era de R$ 2.555, o das mulheres era de R$ 1.985 —número 23% menor.

Conheça histórias de mulheres que ocupam profissões ainda predominantemente exercidas por homens e que enfrentam preconceito no dia a dia.

  • "Além das dificuldades com conteúdos na graduação, precisei lidar com a discriminação" Jessica Machado, 27, desenvolvedora no Banco Inter

''Quando eu comecei a faculdade, a minha intenção era trabalhar com gestão de pessoas e projetos e todas as meninas queriam também porque é uma área mais feminina. Mas, quando eu voltei de um intercâmbio, consegui uma oportunidade de estágio como programadora em uma empresa de automação. E, assim, me descobri na profissão, mas percebi que era uma área com pouca diversidade.

De todas as empresas que trabalhei, eu era uma das únicas mulheres. No meu último emprego, apenas eu e mais uma.

Nessas situações, eu tinha a síndrome do impostor: achava que não sabia fazer nada, que não iria receber uma promoção e que havia pessoas muito melhores do que eu. Sentia medo de tentar alguma vaga porque achava que não conseguiria.

A minha turma na faculdade de ciência da computação tinha, no início, 40 alunos, sendo que só cinco eram mulheres e apenas duas se formaram comigo. Uma delas desistiu porque realmente era uma pressão muito grande.

Chegamos a ouvir coisas ruins vindo de professores, de pessoas que participam da coordenação e até mesmo de colegas de turma: 'O que você está fazendo aqui?' ou 'isso não é curso para mulher'.

Além das dificuldades com os conteúdos do curso de graduação, precisei lidar com a discriminação.

Eu já fiz uma entrevista de emprego em que senti esse preconceito. A empresa me passou uma prova com coisas que aprendemos no começo da faculdade, como matemática lógica, mas nunca usamos no trabalho do dia a dia.

Foi uma situação muito incômoda e percebi que, nessa empresa, havia vários programadores, mas poucas mulheres.

Se eu falo de maneira mais enfática durante um projeto em que eu vejo algo de errado, sempre tem um homem que me pede calma e diz que estou muito nervosa. Teve uma situação que ouvi algo assim de um amigo. É algo tão cultural que as pessoas fazem sem perceber.

Quando me falam isso, sinto como se estivesse gritando, mas só estou tentando mostrar o meu ponto de vista. Se eu não levantar a voz um pouco ninguém me escuta.''

Hoje eu estou numa empresa que tem várias mulheres em posição de poder. Inclusive, a minha própria chefe é uma das pessoas que sempre me bota para frente. Na empresa, temos uma irmandade, um grupo entre nós, dedicado às mulheres na busca de influenciar no desenvolvimento e melhoria no trabalho. E temos também um grupo interno no Banco Inter, ‘Mulheres na TI' [espaço para fortalecer a atuação das mulheres na área de tecnologia] e fazemos algumas palestras e encontros quinzenais pelo Microsoft Teams [plataforma de videoconferências].

Eu também participo do Minas da TI, esse foi o primeiro grupo que me fez sair da caixinha. A partir do momento que eu entrei, participei de palestras de diferentes empresas e tinha mulheres nesses lugares fazendo um trabalho excelente. Eu percebi que também posso chegar nesse mesmo nível. Só preciso me jogar e procurar alguma oportunidade.

  • "Eu tinha que ir ao trabalho parecendo um ‘menininho’ para eles me verem como uma pessoa" Barbara Brier, 33, mecânica de automóveis, fundadora da Oficina Amiga da Mulher

''Após ser desligada de uma montadora de automóveis em 2016, eu comecei a empreender e ensinar mecânica básica para as mulheres.

Para trabalhar no setor automotivo, infelizmente tive que me masculinizar para ter respeito e autoridade. O homem não sabe ouvir uma mulher doce e feminina. As mulheres que trabalham com muitos homens precisam ser bravas porque eles só conseguem escutar se elas falam num tom mais alto.

Barbara Brier - carreiras

Barbara Brier, 33, mecânica de automóveis, fundadora da Oficina Amiga da Mulher - Layza Cristina

A minha leitura do mercado é que não posso ser muito sensual porque o homem perde o foco e começa a ficar só olhando a nossa boca. Então, às vezes, eu tinha que ir ao trabalho parecendo um 'menininho' para eles me verem como uma pessoa. Assim eu fui construindo confiança e comunicação com a minha equipe.

Eu nunca fui muito sensual ou de ficar expondo meu corpo, pois sei como funciona a cabeça de um homem que trabalha nesse setor. Precisei me adequar.

Uma estratégia que adotei é trazer o feminino para perto dos homens da minha equipe quando eles quererem desabafar. Assim, com escuta e acolhimento, consigo me encaixar e trazê-los para perto de mim.''

  • "Eu chego no centro cirúrgico com meu marido e ninguém acha que eu sou a neurocirurgiã" Luana Bandeira, 32, médica neurocirurgiã

''Desde a época da faculdade ouvi que não era para me especializar em neurocirurgia. Eram sempre opiniões desanimadoras. Não só por causa do machismo, mas também por causa do tempo longo da modalidade de residência médica nessa área, de cinco anos.

Quando comecei como neurocirurgiã, vi que é muito difícil para as mulheres nessa área por dois fatores: os comentários dos colegas de trabalho e às vezes dos próprios pacientes.

'A senhora opera a cabeça?' ou 'a senhora opera a coluna?', foram alguns dos questionamentos que recebi como se não fosse um tipo de serviço que pudesse ser realizado por uma mulher. E são, justamente, as áreas em que atuo atualmente. Eu opero tanto o crânio quanto a coluna.

Além disso, já ouvi alguns comentários pejorativos, entre eles 'você não sabe fazer porque é mulher' ou 'isso aqui não existe para mulher'.

Luana Bandeira - carreiras

Luana Bandeira, 32, médica neurocirurgiã - Arquivo pessoal

Meu marido é neurocirurgião. Se eu chego com ele no centro cirúrgico, ninguém acha que eu sou neurocirurgiã também. As pessoas pensam que eu sou auxiliar ou instrumentadora.'' (...)

Quem tiver interesse em completar a leitura do artigo clique aqui para ser remetido ao link respectivo no site da Folha de S. Paulo.



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