25 de out. de 2020

"Gatos Corporativos", conheçam estes "amorosos" bichanos...

  

Lealdade de Gato

(por Herbert Drummond - Autor do Blog)

 Quem tem ou já teve gatos em casa?

É uma "experiência inesquecível” não é mesmo? E coloco entre aspas porque é algo que realmente você não esquece; tenha sido boa ou não. De qualquer forma os bichanos sempre deixam lembranças. Boas e más, mas deixam!

Quem tem experiência com eles deve ter prestado atenção ou lido a respeito do estranho comportamento dos gatos. Livros, artigos, palestras, vídeos e mais se tem publicado sobre esses misteriosos e milenares seres da natureza.

Quem for curioso deve ter observado que os felinos – por mais domesticados que sejam não têm aquela lealdade, digamos... canina, aos seus donos. Devo, antes de qualquer coisa, desculpar-me com os amantes e defensores dos gatos por qualquer falsa impressão preconceituosa (já passei pela experiência, quando garoto e como adulto, de criar gatos). Muito bem, com este pedido de habeas corpus preventivo, vamos em frente.

O gato, segundo as lendas abandonará ou trocará seu dono – não importam os carinhos, o amor, e a boa vida que tenham recebido – quando estas mordomias lhes faltarem. Trocarão, sem pestanejar, o antigo lar – por mais amoroso e leal que tenha sido o ex-dono - por outra casa e uma nova paixão que lhes proporcione o conforto e as regalias que tenham perdido na anterior. É a “imagem” que temos dos gatos. E as histórias que conhecemos – salvo aquelas fora de série – indicam que é assim mesmo.

Gatos Corporativos


Traçando linhas paralelas entre a conduta padrão dos bichanos e minhas vivências no mundo corporativo, cunhei a expressão “Lealdade de Gato” e uso-a, há muitos anos, como metáfora. Caracterizo com ela, o comportamento daqueles companheiros de jornada que, juntos e absolutamente leais e verdadeiros quando os ventos estão favoráveis, abandonam o barco e correm lépidos e fagueiros, a procurar novos lares tão logo as ventanias começam a agitar o barco

Costumo dizer que, tal como os gatos, esses "companheiros", sentem com antecedência as circunstâncias desfavoráveis e começam, desde então, a pesquisar novos lares com um novo dono e o conforto daquelas regalias que os gatos adoram. Esse é um comportamento humano que – tal como nos gatos - simplesmente está no DNA de alguns da nossa espécie.

Estes personagens são mais numerosos do que imaginam os futuros e recentes gerentes ou chefes que estejam iniciando suas trajetórias como líderes corporativos. Um aspecto cruel dessa convivência é que os gatos (todos nós temos ou teremos os nossos) só serão pilhados à medida que seus donos, após galgarem os degraus do sucesso com eles - os gatos ali, juntos e “fieis” - por esta ou aquela razão tropeçam na carreira e deixam de exercer funções de relevância. Falta-lhes o “leitinho no pires”... E este é o sinal de que as coisas não estão bem para o lado deles. É a hora, pois, de procurar um novo ”dono”.

Característico é que o mesmo gato irá procurar, sem constrangimentos, voltar ao antigo dono no caso da situação se reverter novamente. E quantas vezes isso aconteça! É fato mais do que recorrente no mundo corporativo, mas sempre surpreendente para quem tenha confiado neles, os “gatos de carreira”.

Os gerentes veteranos e mais experientes que já foram “donos” de gatos estão vacinados. Sabem identificá-los antes que comecem aqueles miados pungentes e carinhosos acompanhados pela dança do roçar entre suas pernas e pular no seu colo”. Este, aliás, um procedimento inerente à personalidade dos gatos corporativos.

Gatolândia: Gatos Profissionais


Poderia ficar aqui discorrendo sobre a “Gatolândia” por muito tempo. Tenho experiência. Já passaram muitos gatos por minha trajetória profissional. Amigos e companheiros leais, presentes e prestativos enquanto eu estava em ascensão na carreira e ocupava funções de destaque, rapidamente eles, os meus gatos mais queridos, davam as costas tão logo percebiam que o “barco estava fazendo água”. Antes mesmo de ocorrer a “queda” eles já estavam aninhados em outros colos. E eles, os gatos, fazem isso com maestria e com raro timing.

Na Administração Pública a prática é mais comum do que na iniciativa privada. Naquelas organizações (empresas públicas, autarquias, ministérios, agencias) a meritocracia é menos praticada do que na atividade privada. Lá, os gatos são mais numerosos, agitados e saltam sem o menor acanhamento para os braços e colos de quem esteja no poder. 

Existem, como me referi acima, os “gatos profissionais”. São “gordos, maliciosos e insinuantes” como aqueles gatões que nos acostumamos a ver nos desenhos da Disney. Passam a vida profissional inteira trocando de “donos” e realizam-se com esta... carreira.

Aqueles com o DNA mais refinado conhecem e dominam todas as manhas e técnicas para serem reconhecidos e até aceitos como “Gatos de Respeito”. Também existem os “gatinhos”. São os jovens que se iniciam no mundo corporativo e com pouco brilho próprio começam a observar, manhosos e com miados sedutores, os “futuros donos” até escolher aquele que imaginam, será um futuro dirigente da corporação onde tenham seus cantos e lhes assegurem o conforto que projetam para si. Quem sabe conseguem um CEO, um Presidente ou até um Ministro ou mais ainda...

Pensam que estou brincando? Pois não estou! Os gatos estão bem aí, nas mesas ao lado, nos corredores do ambiente de trabalho ou até na sua assessoria. Se você não tiver vocação para ser “dono de gatos” comece desde já a prestar atenção a quem vive se enroscando em você ou pulando no seu colo. Eu mesmo conheço - em épocas e organizações diversas -  dois gatos que chegaram a exercer funções de destaque na administração pública.

Ops! Já estava esquecendo um detalhe importante. Gato ou gata? Tanto faz. O DNA é unissex. A carreira de um habitante da Gatolândia é ampla, geral e irrestrita. Não tem sexo, cor, idade ou qualquer outra limitação. Diria que é... Ecumênica. 

Conselhos úteis para os "donos" de gatos corporativos.


Importante dizer que os gatos e gatinhos são muito úteis para quem sabe lidar com eles. Ajudam muito, contribuem - às vezes decisivamente - para as carreiras dos seus (vários) donos desde que recebam a sua dose diária de comida, carinhos e afagos; e não devem ser dispensados só porque são gatos corporativos. Apenas não se deixem enganar pelo ronronar dos bichanos. Mantenha-os na linha.

Que os donos de gatos não esperem gestos de lealdade e muito menos atitudes de fidelidade em momentos difíceis e de confrontos corporativos onde suas posições de poder estejam ameaçadas. Nestes casos os gatos se escondem, tiram férias, licenças médicas e procuram com menos avidez desfrutar das regalias. Imediatamente começam a percorrer os telhados e quintais vizinhos até que as “coisas" fiquem calmas e eles possam, novamente, escolher se ficam onde estavam ou vão escolher novas moradas. Eles têm um radar fantástico para reconhecer ameaças e novos donos.

Outro conselho: não dê segunda chance aos gatos que tenham lhe abandonado antes. Eles não têm constrangimento em “voltar para casa” quando estão em apuros. Já aconteceu comigo. Antes de ser exonerado de uma das funções de destaque que exerci, um dos meus mais próximos assessores – era um gato profissional e eu ainda não tinha a experiência para identificar – pulou fora do barco e foi garantir seu leitinho em outras plagas. Tempos depois voltei a ocupar uma função de relevo e ele veio ronronar perto de mim... Não deu certo para ele.

Para finalizar, deixo recomendações valiosas, simples e diretas, para os futuros líderes e gerentes:

  1. Aprendam urgentemente a reconhecer os gatos corporativos no seu time. Não os revele para ninguém.  Conviva com eles, trabalhe normalmente com seus talentos, mas nunca esqueça quem eles são. 
  2. Estejam sempre vigilantes para seus movimentos. Por óbvio os gatos corporativos têm uma forte tendência a serem desleais. Estão sempre “investindo” em futuros novos donos e estes são, naturalmente, os seus concorrentes.
  3. Finalmente, o conselho mais importante:
Não criem e nem queiram ser "donos de gatos”!

  http://www.gifandgif.eu/animated_gif/Arrows/Animated%20Gif%20Arrows%20%28123%29.GIF Herbert Drummond é engenheiro civil aposentado. Foi, durante trinta e cinco anos, dirigente de empresas e organizações na Atividade Privada, na Administração Pública e no Ministério Público do Distrito Federal. É autor do blog Oficina de Gerência (mais de 1.000.000 de acessos) onde publica e comenta seus artigos e de terceiros.

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