Uma eleição não movimenta apenas as urnas: mexe com nossas emoções, nossos receios e nossas relações. Muitos de nós saem do eixo.
Nesta reta final da disputa, tenho ouvido e percebido, entre amigos e familiares, relatos de ansiedade e angústia que merecem ser ouvidos com respeito.
Acredito nesse sofrimento e penso que ele não deve ser tratado como exagero ou fraqueza. As "vítimas" desses “sintomas de ansiedade e estresse associados ao contexto eleitoral” sentem, verdadeiramente, algo diferente nos seus comportamentos corriqueiros sem conseguir explicar-se: um certo desânimo incompreensível, insônia sem motivo, obsessão em acompanhar o noticiário eleitoral...
A reportagem da Folha de S. Paulo, que compartilho a seguir, aborda esse lado humano do acirramento eleitoral. É uma leitura oportuna para refletirmos sobre os limites entre o envolvimento político e o desgaste que compromete o descanso, a convivência e a vida cotidiana.
Defender nossas convicções é parte da democracia. Cuidar de nós mesmos e respeitar o sofrimento do outro também precisa fazer parte dessa experiência.
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São Paulo - Vitor Hugo Batista A poucos dias do segundo turno das eleições, a estagiária de psicologia Larissa Santos, 29, quase não pegou no sono. "Fui dormir às 2h30. Meu marido disse que eu ia surtar", conta. O motivo? Imaginar o que poderia acontecer se o candidato do campo político oposto ao seu vencesse a disputa presidencial. "Eu estou mais ansiosa, minha produtividade no trabalho caiu drasticamente e todo esse contexto tem afetado minhas relações pessoais", afirma. É a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) que aparece no centro das preocupações de muitos eleitores. Após o primeiro turno, Flávio saiu à frente com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula somou 45,16% — diferença de apenas 1,87 ponto percentual. A decisão será tomada neste domingo (25), quando os brasileiros vão às urnas escolher o presidente da República para os próximos quatro anos. Em seis estados — Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins — e no Distrito Federal, a população também vai definir seus governadores. Nas redes sociais, o debate sobre propostas e programas de governo se mistura a previsões de catástrofes, ataques a adversários e mensagens que apresentam a vitória de um candidato como uma ameaça à própria vida cotidiana. E ganhou até nome entre os internautas: psicose política — termo que não existe no léxico clínico. A preocupação com o resultado eleitoral, por si só, não representa um problema de saúde mental, segundo especialistas ouvidos pela Folha. O sinal de alerta aparece quando o assunto passa a dominar os pensamentos, provoca sofrimento intenso e persistente e prejudica atividades cotidianas. "Na psicologia, chamamos de ruminação mental. O indivíduo permanece mentalmente ocupado com o mesmo assunto, mesmo quando gostaria de se concentrar em outras atividades", explica o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do programa de mudança de hábito e estilo de vida do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo). Os sinais de alerta podem aparecer em diferentes áreas da vida. Dificuldade para adormecer, despertar durante a madrugada para consultar notícias, irritabilidade, tensão muscular, dores de cabeça, desconfortos gastrointestinais, palpitações, fadiga e alterações do apetite são algumas das manifestações que podem acompanhar o estresse. "Um sinal de alerta é quando a pessoa já não consegue escolher quando se envolver com a política e quando se desligar dela. O assunto passa a dominar seus pensamentos, suas emoções e seu comportamento, mesmo nos momentos destinados ao trabalho, à convivência e ao descanso", diz Danila. Esses sintomas não são exclusivos da ansiedade eleitoral e não permitem, isoladamente, concluir que alguém tenha um transtorno mental. Além de intensidade, duração e impacto, é necessário observar fatores pessoais, familiares, profissionais e sociais, além de quadros psicológicos pré-existentes. "Se houver prejuízo importante no cotidiano ou agravamento de uma condição psiquiátrica, é recomendável procurar avaliação profissional", afirma Danila. Segundo ele, a indicação de medicamentos depende de uma avaliação clínica individualizada. O tratamento começa com uma avaliação. O profissional investiga os sintomas, histórico de saúde mental e estratégias que a pessoa utiliza para lidar com o estresse.
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