NOTA À REPUBLICAÇÃO
Este texto foi publicado originalmente em 04/abril/2021 (clique aqui se quiser conhecê-lo). Ao reencontrá-lo agora, cinco anos depois, percebi que a pequena história que lhe deu origem continuava atual — mas havia ganhado uma dimensão que, naquela época, eu não poderia prever.
O artigo trata essencialmente do valor da experiência diante das situações inesperadas que encontramos pela vida e pela carreira. A experiência continua lá, tal como em 2021, com seu valor intacto. O que mudou foi o mundo à sua volta.
Quando escrevi o texto, em 2021, a inteligência artificial já existia e avançava rapidamente, mas ainda estava distante da experiência cotidiana da maioria das pessoas. A grande virada ocorreria no final de 2022, com a chegada ao público das ferramentas de inteligência artificial generativa — entre elas o ChatGPT, lançado em 30 de novembro daquele ano — e sua extraordinária disseminação nos anos seguintes.
Hoje, temos ao nosso alcance, em segundos, informações, análises e alternativas que antes exigiam tempo, pesquisa e, muitas vezes, conhecimento especializado. E essa mudança acrescentou uma nova dimensão à reflexão que fiz naquele pequeno post.
Resolvi, por isso, republicá-lo, preservando sua ideia original e acrescentando, ao final, uma reflexão à luz dessa nova realidade.
Afinal, revisitar uma ideia antiga não serve apenas para descobrir se ela envelheceu. Às vezes, serve para perceber o que o tempo lhe acrescentou.
Experiência X Inexperiência - Entenda do que se trata
(Autor: Herbert Drummond)
Diz um eterno brocardo que uma imagem vale por mil palavras. Concordo 100% com ele.
Em determinado tempo, me deparei com um desses minivídeos que circulam aos montes nas redes sociais. Divertido, como deve ser. Entretanto, ao vê-lo, tive um insight que resolvi trazer para o blog.
Assistam ao vídeo antes de continuarmos, por favor.
Lido? Vamos lá, então. O que lhe ocorre quando procura decompor o vídeo como um storyboard?
- O primeiro golfista, ao deparar-se com o crocodilo, assusta-se e pula fora, buscando uma distância segura. Está correto. É uma reação natural diante de uma suposta situação de risco e, certamente, inesperada. Não deixe de observar, porém, a calma do carregador de tacos que o acompanha. Aparentemente, aquela presença não lhe causa surpresa.
- O segundo golfista vem calmamente — provavelmente já havia avistado o animal de longe —, aproxima-se com toda a naturalidade, dá um peteleco em sua cauda e é o crocodilo que, assustado, dá um pulo para dentro da água, seu habitat.
São duas cenas diferentes, aparentemente ocorridas em campos de golfe. O que sugere essa diferença de atitudes entre os dois golfistas?
Podem ser extraídas desse curto vídeo inúmeras interpretações. Só uma delas interessa ao nosso propósito.
- O primeiro golfista parece pouco familiarizado com uma situação daquela natureza. Não esperava encontrar um crocodilo em seu caminho e reage como provavelmente reagiria a maioria de nós: afasta-se rapidamente do perigo.
- O segundo, pelo contrário, age como alguém familiarizado com aquele tipo de ocorrência. Aproxima-se sem demonstrar preocupação e parece saber exatamente o que fazer. Está tão à vontade que sequer muda o curso de sua caminhada. Um simples toque na cauda do animal é suficiente para fazê-lo voltar para a água.
- Dois executivos, com formação e currículos aparentemente semelhantes, são instados a resolver um difícil problema em suas corporações. Recebem prazos e condições de trabalho equivalentes. Perder o prazo significa perder o contrato.
- Findo o prazo, um deles apresenta a solução completa. O outro, apesar de possuir formação técnica e acadêmica igualmente sólida, não consegue chegar ao resultado esperado.
- Onde estava a diferença? Possivelmente no traquejo daquele que encontrou a solução. Não necessariamente sabia mais; talvez tivesse vivido mais. Já enfrentara situações que lhe permitiam reconhecer padrões, avaliar riscos e decidir sob pressão.
- O outro executivo, embora tecnicamente tão preparado quanto o primeiro, talvez não tivesse acumulado o mesmo repertório de experiências profissionais e pessoais, nem enfrentado circunstâncias que o obrigassem a tomar decisões fora dos caminhos conhecidos.
É assim que vamos formando, ao longo da vida e da carreira, aquilo que gosto de chamar de bagagem da experiência.
Ela não substitui o conhecimento técnico nem a formação acadêmica. Acrescenta-lhes algo que dificilmente se aprende apenas nos livros: repertório, percepção, segurança diante do imprevisto e capacidade de reconhecer, em uma situação aparentemente nova, traços de outras que já enfrentamos.
(final do artigo)
Cinco anos depois...
Cinco anos após escrever este texto, há um novo personagem nessa conversa: a inteligência artificial.
Hoje temos ao nosso alcance, em segundos, uma quantidade de informações, análises e alternativas que, em 2021, seria difícil imaginar. Uma IA pode ajudar a identificar um problema, comparar soluções, construir cenários e até alertar para riscos que não havíamos percebido.
Isso torna o conhecimento muito mais acessível. Mas não elimina o valor da experiência. Talvez faça exatamente o contrário.
- Quanto mais fácil se torna obter informação, maior pode se tornar o valor de saber o que fazer com ela.
Informação pode ser obtida em segundos. Experiência continua exigindo tempo, vivência, erros, acertos, decisões e contato com situações reais.
A inteligência artificial pode nos dizer que há um crocodilo no caminho, explicar seu comportamento, avaliar o risco e até sugerir o que fazer. Outra coisa é já ter encontrado muitos “crocodilos” pela vida e saber distinguir, diante de cada um deles, quando é hora de recuar, quando é preciso enfrentá-lo e quando basta seguir adiante.
- A experiência não elimina os crocodilos que aparecem pelo caminho. Mas nos ensina a distinguir aqueles dos quais devemos fugir daqueles que podem ser enfrentados sem perder o passo.







