quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Péssimo exemplar de um CEO com traços psicopatas: o indiano Vishal Garg.


Jamais conheci, em tempos contemporâneos, nem de ver ou ouvir falar, tamanho desprezo de alguém que ocupe uma função de CEO de grande corporação, por seu corpo de trabalho, seu time, sua equipe!!! O que se passou na cabeça de um indivíduo como esse, naquele momento. O que pensou que estava fazendo?

E realmente não há precedente na história das relações profissionais entre um... mentecapto como esse Vishal Garg (recuso-me a chamá-lo de líder)  seus liderados. 

Todavia, foi o que aconteceu na corporação n Better.com., empresa que oferece hipotecas ao mercado americano. O seu cofundador e  Diretor-Presidente, Vishal Garg demitiu de uma vez 900 funcionários (9% da força de trabalho), na véspera de Natal e, o pior e até cruel e sádico, fez o comunicado através de uma reunião via Zoom, convocada por ele sem dizer o motivo. Covarde além de tudo o mais..

O episódio aconteceu em meados de dezembro passado e como não poderia deixar de ser, repercutiu no mundo corporativo inteiro, do planeta. Isso mesmo! No mundo inteiro!

As consequências já ocorreram; o "executivo" (deveria ser chamado de executor) foi afastado, mesmo depois de pedir desculpas, como se algo assim merecesse desculpas. Todo o episódio está na internet de forma que não vou me deter no fato em si, mas que foi uma execução em massa, foi!

Quero especular e comentar sobre a atitude. O que levou um cara com muitos anos de mercado e à frente de uma empresa avaliada em quase 7 bilhões de dólares a fazer tamanha burrice?

Antes, vamos assistir o vídeo exibindo a fala do CEO promovendo a demissão. Lembrem-se que os 900 empregados foram "convidados" por ele para uma reunião pelo Zoom.


Já refleti muito sobre a intenção, o propósito e a "inspiração" de um presidente de empresa para engendrar uma calamidade dessas. Sim, porque ele não o fez sem pensar, obviamente. Foi planejado a ponto de convocar 900 pessoas para a guilhotina.

Qual o caminho tortuoso em sua mente que o fez pensar que a sua empresa ganharia alguma vantagem com isso? Não consigo imaginar que um CEO, mesmo em seus momentos mais delirantes, possa planejar algo para trazer desvantagem ao seu negócio. Desejaria entrar na cabeça de um cara desses para descobrir o que ele imaginou quando pensou e colocou em ação a sua "façanha".

Não consegui uma explicação simples para o ato. O mínimo que cheguei a concluir é que o ato foi praticado por uma mente de "nazista". E não estou adjetivando à toa não! 

Tem muito executivo (e conheci alguns)  com as características básicas de mentalidade psicopata ou sociopata. Essas pessoas se caracterizam principalmente por falta de empatia e desprezo pelas emoções das pessoas à sua volta. Foi exatamente o que aconteceu com o Senhor Vishal Garg.

O principal objetivo desta postagem é chamar a atenção dos - principalmente jovens - executivos ou daqueles que buscam galgar essas posições de mando e comando nas organizações.  Defendam-se de si próprios contra a arrogância e a falta de empatia com as pessoas dos seus círculos profissionais, sociais e pessoais. 

O poder, se não for muito bem processado nas mentes dos indivíduos que o detêm pode ser um veneno e o caminho mais curto para uma carreira destinada ao fracasso, na maioria das vezes,  inesperados e fulminantes.

Se pesquisar um pouquinho os comentários que foram publicados pelos funcionários da Better, não é difícil perceber o CEO já apresentava esses sinais. Tenho (a quase) certeza de que o personagem daquele ato de maldade, de sadismo e desprezo pelas emoções alheias foi criado por uma personalidade arrogante, com traços de psicopatia. 

Fiquem longe e, se possível, não trabalhem sob o comando dessas pessoas;

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Elza Soares foi para o Mundo dos Encantados



"Elza, confiante em seu talento para cantar, devido aos elogios que recebia de parentes e amigos, se inscreveu no concurso musical do programa radiofônico Calouros em Desfile, em meados de 1953, que era apresentado pelo compositor Ary Barroso. Para a apresentação, usou um vestido da mãe, aproximadamente vinte quilos mais gorda, ajustado com vários alfinetes de fralda, fazendo um penteado de maria-chiquinha no cabelo."

Quando Elza subiu ao palco, foi recebida pelo auditório e por Ary Barroso, com gargalhadas. Ary tentou ridicularizar Elza perguntando-lhe:

E Elza rebateu:

Depois, Elza cantou "Lama" e ganhou a nota máxima do programa. Ary, então, anunciou que, naquele exato momento, acabava de nascer uma estrela(Wikipédia)


Não há o que falar sobre Elza Soares. Tudo foi dito, visto e escrito. O que quer que se queira dizer é pouco, muito pouco sobre essa "mulher de outro planeta", frase profética de Ary Barroso em 1953 (!!!)

Sou da geração que já a conheceu sob os holofotes do sucesso. Sua história de vida já está no Google em 28.500.000 de links . 

Para fazer uma singela homenagem do blog a essa artista brasileira histórica e inigualável, o que pensei foi apresentar três vídeos selecionados, de épocas diferentes, na esperança de que visitantes da Oficina de Gerência, mais jovens, tenham oportunidade de ver, ouvir e sentir a arte de Elza. 

Antes de assistir os vídeos saibam que Elza Soares, foi premiada pela BBC de Londres, em 2000, como "Melhor Cantora do Milênio", quando se apresentou  com vários artistas brasileiros (Gal Costa, Chico Buarque, Caetano e Gil). 

Dos vídeos abaixo quero destacar o primeiro. Elza interpreta e canta a música que eu considero a sua melhor performance, "Meu Guri", de Chico Buarque. Ela se emociona, de verdade, pois a letra fala muito de sua realidade na favela quando viveu o início da sua vida, havendo inclusive perdido também um filho, o "seu guri". 

Convido-os, pois, quando o mundo da música venera e chora a morte de sua estrela, a conhecer um pouco de Elza Soares.


                          Elza Soares e Grupo Nós do Morro interpretam 'Meu Guri', composição de Chico Buarque.

                                                                          Elza Soares - Ziriguidum


                           ELZA SOARES NA GUAYCURUS


quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello

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Thiago de Melo (30/3/1926-14/1/2022)

Se alguém quiser discutir feio comigo basta falar mal de Thiago de Mello.

Basta dizer que o meu segundo filho se chama Thiago e além da beleza do nome é também uma homenagem a este poeta extraordinário que a raça brasileira produziu a partir das selvas amazônicas.

Não! Não vou falar Thiago de Mello. Desnecessário.

Trago-lhes tão somente uma de suas poesias mais conhecidas e mais emocionantes. Segundo seus críticos, a mais famosa. Falo de "Os Estatutos do Homem". É o retrato de sua vida, grande parte dedicada a defender o direitos humanos, os direitos dos povos da Amazônia e os direitos de todos os oprimidos. 

Para quem não a conhece e acho que são muitos, principalmente os jovens, será uma linda emoção. Para aqueles mais velhos que já transitaram  pelos versos sempre vivos e questionadores do poeta será uma alegria poder ouvir a sua voz poderosa dizer "Fica decretado que agora vale a verdade, agora vale a vida..."

Por favor, não vejam o vídeo, se não estiverem a fim de de admirarem uma das mais belas páginas da poesia brasileira. Deixem para outra hora. Será um desperdício não aproveitar cada momento, cada frase, cada entonação que a interpretação do poeta nos conduz nos quase 6 minutos da apresentação.

Após o vídeo coloquei o texto do poema para quem quiser copiar e distribuí-lo aos seus filhos e amigos.


Poeta Thiago de Mello, acompanhado do Duo Gismonti, no Circo Voador, Rio de Janeiro, na abertura do Poesia Voa 2.0 | Festival Poesia Direitos Humanos - 10.dez.2006

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Criado em Santiago do Chile, abril de 1964

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Maquiavel é "entrevistado" pela revista Veja no ano de 1501. Confira.





Gosto muito de procurar, no baú de arquivos, os posts que já divulguei aqui na Oficina de Gerência. Entre textos publicados e rascunhados são mais de 4.000. Afinal, a Oficina está na blogosfera desde 2007.

Pois bem, vou lá no baú e fico remexendo. Sabe quando você pega aquela caixa de fotografias antigas e fica ali, "fazendo a terapia das boas saudades"? É mais ou menos isso. Verifico que há algum tema atemporal esquecido, como por exemplo, post sobre história; um dos meus preferidos. Adoro história e tenho algumas tags sobre o assunto aqui no blog (veja na barra de rolagem). 

Nessa última curtida no baú, acho que me dei bem. "Achei um post sensacional (desculpem a imodéstia) que foi publicado há muitos anos pela revista VEJA, na verdade um "braço" da revista que tinha o título de "Veja na História". Era maravilhoso, mas a Veja, lamentavelmente, acabou com ele. 

A matéria, originalíssima, traz uma "entrevista" com Maquiavel como se fosse o ano de 1501, quando ele desfrutava do pico de seu prestígio no governo de Florença. 

Para não perder o momento da publicação, preferi não editar o texto      de apresentação da matéria. Por isso algumas citações poderão parecer um tanto  fora de época, mas achei que o post ficaria mais autêntico. O que interessa mesmo é á a "entrevista" e ela está na íntegra.

 Vocês vão gostar, tenho certeza.


(post sem edição) "Quase impossível escrever algo novo sobre Maquiavel. Certamente não serei eu a me arriscar. 

Todavia descobri que a revista Veja, na verdade um braço da organização da Abril.com dedicado a história intitulado "Veja na Historia" (clique no logotipo abaixo) conseguiu criar uma novidade. Simplesmente "inventou" uma entrevista com o célebre florentino como se ela tivesse ocorrido na sua época.

Texto inteligente, perguntas apropriadas e respostas retiradas das (poucas) obras de Maquiavel - principalmente "O Principe" - tornaram a matéria jornalística uma leitura obrigatória para quem se interessa por historia e por administração em geral.

Recomendo a leitura completa da "entrevista". É uma aula! Maquiavel responde a questões sobre Constituição, Liberdade, Protestos Populares, Igreja e Religiosidade entre muitos outros. O nível de atualidade que encontramos na obra de Maquiavel e que a torna eterna está refletido nas 18 "respostas" que Maquiavel deu às perguntas do seu "entrevistador."

Para dar um clima na leitura da “entrevista” vou aproveitar a oportunidade e publicar algumas poucas frases que foram deixadas pelo genial florentino. Para quem não as conhece reflitam sobre a atualidade do que ele disse há mais de 500 anos.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/77/Machiavelli_Principe_Cover_Page.jpg
Ao lado das frases está a imagem da folha de rosto da edição de 1550 de "O Principe " e de "A vida de Castruccio Castracani da Lucca '', de Nicolau Maquiavel"
    • - "Os homens ofendem mais aos que amam do que aos que temem."
    • - "O desejo de conquista é algo natural e comum; aqueles que obtêm sucesso na conquista são sempre louvados, e jamais censurados; os que não têm condições de conquistar, mas querem fazê-lo a qualquer custo, cometem um erro que merece ser recriminado."
    • - "Todos os profetas armados venceram, e os desarmados foram destruídos."
    • - "A ambição é uma paixão tão forte no coração do ser humano, que, mesmo que galguemos as mais altas posições, nunca nos sentimos satisfeitos."
    • - "Os homens quando não são forçados a lutar por necessidade, lutam por ambição."
    • - "O homem que tenta ser bondoso todo tempo está fadado à ruína entre os inúmeros outros que não são bons."
    • - "Na política, os aliados atuais são os inimigos de amanhã."

    http://1.bp.blogspot.com/_Hl7ROBkH-Wc/TKUUIT1MruI/AAAAAAAAAAU/lQQfW29qIKE/S1600-R/HistoriaUniversalCDRom-1.JPG

    VEJA, 1° de julho de 1501 .............Entrevista: Nicolau Maquiavel

    O pensador florentino aponta erros dos governos fracos e diz como funciona a política por dentro

    Aos 32 anos e há três ocupando o cargo de secretário do conselho de segurança do governo de Florença, Nicolau Maquiavel é hoje mais que um personagem-chave da diplomacia europeia. Tem-se revelado um fenomenal pensador dos problemas de Estado. "É impossível que uma república permaneça tranquila, gozando de liberdade dentro de suas fronteiras. Se não molestar as demais, será molestada por elas", sustenta. Alguns analistas detectam nas ideias do florentino o embrião de uma nova ciência, na qual a teoria política, baseada na realidade dos fatos, existiria como disciplina autônoma, separada da moral e da religião. Outros veem nesse praticante polemista sem meias palavras não mais que um oportunista, cujo talento serve para fornecer aos governantes ferramentas que garantam sua manutenção no poder. Com tanta controvérsia, suas ideias, expostas nesta entrevista, estão destinadas a alimentar discussões acaloradas por muito tempo.
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    VEJA – Qual a responsabilidade dos governantes italianos diante da recente onda de invasões estrangeiras que assolou a península?
    MAQUIAVEL – Antes de experimentar os golpes dos guerreiros ultramontanos, eles acreditavam que para um príncipe bastava saber, em seu gabinete, imaginar uma resposta mordaz, escrever uma bela carta, fazer ostentação em suas conversas e discursos de sutileza e vivacidade; que lhes bastava saber urdir um estratagema, adornar-se de ouro e pedrarias, dormir e comer mais esplendidamente do que os outros, cercar-se de libertinagem, comportar-se em relação aos seus súditos com avareza e soberba, estagnar-se na ociosidade, conceder os postos do exército como favor, desprezar os conselhos louváveis, exigir que suas palavras fossem recebidas como oráculos. Eles não percebiam, os infelizes, que se preparavam assim para tornar-se presa do primeiro assaltante.
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    VEJA – O senhor denuncia a falta de preparo militar dos governantes, mas, como diplomata, acaba de ser muito bem-sucedido ao negociar com a França uma solução pacífica para a guerra entre Florença e Pisa. Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas?
    MAQUIAVEL – Há duas maneiras de combater: uma, segundo as leis; a outra, pela força. A primeira forma é própria dos homens, a segunda é própria dos animais. Mas, como a primeira freqüentemente não basta, é preciso recorrer à segunda. Não há lei nem Constituição que possa pôr um freio à corrupção universal.
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    VEJA – Qual a sua opinião sobre os governos que, em vez de se envolver em guerras, adotam a política da neutralidade?
    MAQUIAVEL – Muito embora eu ouça louvar por toda parte a política da neutralidade, não posso aprová-la. Em toda minha experiência dos negócios públicos e em tudo o que li sobre história não consigo me lembrar de um só caso em que a política da neutralidade tenha sido vantajosa. Pelo contrário, tais políticas sempre são desastrosas e levam direto à ruína.
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    VEJA – O governante empenhado em conduzir políticas acertadas deve ter isso sempre em mente?
    MAQUIAVEL – Não imagine nunca nenhum governo poder tomar decisões absolutamente certas; pense antes em ter de tomá-las sempre incertas, pois isso está na ordem das coisas que nunca deixam, quando se procura evitar algum inconveniente, de operar um outro. A prudência está justamente em conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo o bom.
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    VEJA – Muitas vezes, nessa tentativa de fazer o certo, os governantes passam por cima da Constituição. Funciona?
    MAQUIAVEL – Em um Estado bem constituído, qualquer que seja o acontecimento que surja, não se deve ser obrigado a recorrer a medidas extraordinárias; porque, se as medidas extraordinárias fazem bem no momento, seu exemplo traz um mal real. O hábito de violar a Constituição para fazer o bem autoriza, em seguida, a violá-la para disfarçar o mal.
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    VEJA – Na prática, que o senhor conhece tão bem, é comum mexer na Constituição. Qual o modo menos traumático de fazê-lo?
    MAQUIAVEL – Quem quiser mudar a Constituição de um Estado livre, de maneira que essa modificação seja bem-vinda e se possa manter com a aprovação de todos, deve salvaguardar, ao menos, a sombra das formas antigas, a fim de que o povo pouco se aperceba das mudanças, mesmo se as novas instituições sejam totalmente estranhas aos antigos; porque os homens se alimentam tanto de aparência como de realidade; muitas vezes, a aparência os impressiona mais que a realidade.
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    VEJA – Uma boa Constituição basta para garantir a liberdade?
    MAQUIAVEL – Em toda república existem dois partidos, o dos aristocratas e o do povo; e as leis que favorecem a liberdade resultam da luta desses partidos um contra o outro. Todos os legisladores que redigiram constituições sábias para repúblicas sempre julgaram essencial estabelecer uma proteção à liberdade; e, conforme a maior ou menor habilidade com que essa proteção foi criada, a liberdade durou mais ou menos. As graves e naturais inimizades que existem entre as pessoas do povo e os nobres, causadas porque estes querem mandar e aqueles não querem obedecer, são os motivos de todos os males que surgem nas cidades, porque dessa diversidade de humores se nutrem todas as outras coisas que perturbam as repúblicas.
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    VEJA – Uma vez conquistada a liberdade, a quem se deve confiar sua guarda: às elites ou ao povo?
    MAQUIAVEL – Na minha opinião, qualquer encargo deve sempre ser confiado a quem tenha menos inclinação a fraudá-lo. Quando o povo recebe o encargo de velar pela liberdade, ele, sendo menos inclinado a invadi-la, dará necessariamente melhor conta da incumbência; e, também, sendo incapaz de violá-la ele próprio, melhor impedirá que outros o façam.
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    VEJA – Ainda que para isso o povo questione as instituições?
    MAQUIAVEL – A quem me disser que a grita constante do povo contra o Senado, a indisposição do Senado contra o povo, as correrias nas ruas e mesmo, em certos casos, a fuga dos habitantes da cidade para escapar aos tumultos – a quem me disser que tais fatos são meios bem estranhos de atingir um fim conveniente responderei que esses mesmos fatos só podem assustar os que apenas os vêem e que todo Estado livre deve dar ao povo uma válvula, por assim dizer, para as suas ambições.
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    VEJA – E quando os protestos populares geram violência?
    MAQUIAVEL – Quem se der ao trabalho de examinar com cuidado os resultados daquelas agitações verá que elas jamais foram causa de violências ou de quaisquer prejuízos ao bem geral e se convencerá de que, pelo contrário, elas deram de fato origem a leis vantajosas para as liberdades públicas.
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    VEJA – Há, nas universidades de hoje, modelos teóricos de sociedades mais justas e igualitárias. O senhor acredita que a humanidade construirá um mundo melhor?
    MAQUIAVEL – O que eu não sei, embora gostasse de saber, é exatamente quando uma determinada política pode ajudar e quando pode prejudicar. O paladar é ofendido pelas coisas amargas, mas tampouco lhe agradam as doces demais. De modo que os homens se cansam do bem, do mesmo modo que se irritam com o mal.
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    VEJA – Apesar de crítico da Igreja, o senhor não vê nenhuma atuação positiva em termos de melhorar as coisas desse mundo?
    MAQUIAVEL – Se, nos inícios da república cristã, a religião tivesse permanecido fiel aos princípios de seu fundador, os Estados e as repúblicas da cristandade seriam mais unidos e bem mais felizes. Não há melhor indício de seu declínio do que o fato de que os povos mais próximos da Igreja de Roma, líder da nossa religião, é que são os menos religiosos. A ponto de que, se confrontarmos os princípios que presidiram a sua criação e o uso que é feito deles hoje, julgaremos próxima a hora da sua ruína ou da calamidade.
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    VEJA – Mas a religiosidade não é um fator importantíssimo para o povo italiano?
    MAQUIAVEL – Em virtude dos maus exemplos que lhe vêm de Roma, a Itália perdeu toda a devoção e todo o sentimento religioso, o que dá origem a uma infinidade de desregramentos e de desordens: porque, assim como a presença da religião pressupõe todo tipo de bem, sua ausência dá a entender o contrário. Nós temos portanto, nós, italianos, uma primeira dívida para com a Igreja e os padres: a de termos perdido todo o sentimento religioso e de nos termos tornado maus. Mas nós lhe devemos outra coisa, ainda mais importante, e que é a segunda das causas de nossa ruína: terem mantido e manterem sempre o nosso país dividido.
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    VEJA – Como a Igreja tem contribuído para a fragmentação política da Itália?
    MAQUIAVEL – Jamais país algum viveu unido e próspero se não foi submetido inteiramente, como a França e a Espanha, a um só governo: república ou monarquia. E, se a Itália não chegou a isso e não se encontra igualmente unida sob a autoridade de uma só república ou de um só príncipe, a única responsável é a Igreja. Ela conseguiu instalar-se na península e aí deteve um poder temporal. Mas, por um lado, ela não foi nem bastante poderosa nem bastante hábil para impor sua supremacia e assegurar-se da soberania; e, por outro, nunca foi tão fraca a ponto de que o temor de perder o seu domínio temporal a dissuadisse de chamar uma potência estrangeira em seu socorro contra um outro Estado italiano que se tornara, na sua opinião, poderoso demais.
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    VEJA – Não há um pouco de exagero em culpar a Igreja romana por tantos problemas dos italianos?
    MAQUIAVEL – Para convencer as pessoas prontamente, pela experiência, da verdade das minhas afirmações, seria preciso mandar a corte de Roma, com a autoridade que goza na Itália, residir no território dos suíços, o único povo que, em matéria de religião e de disciplina militar, permaneceu fiel aos costumes antigos. Ver-se-ia em pouco tempo os costumes censuráveis dessa corte causarem aí mais distúrbios do que qualquer outro acidente jamais pôde produzir na história desse país.
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    VEJA – Qual conselho fundamental o senhor daria a um governante?
    MAQUIAVEL – É preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado.
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    VEJA – É recomendável cooptar antigos adversários?
    MAQUIAVEL – Os príncipes, e particularmente os príncipes novos, têm encontrado muito mais fidelidade entre os homens que, no início do seu principado, foram considerados suspeitos do que entre aqueles nos quais eles tinham inicialmente confiado. Os homens que, no início do seu principado, haviam sido seus inimigos e cuja condição é tal que para manter-se têm necessidade de apoio, estes o príncipe poderá sempre ganhar para a sua causa com grande facilidade.
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    VEJA –Para um governante, é preferível ser temido ou amado?
    MAQUIAVEL – Eu respondo que é necessário ser um e outro; mas, como é bem difícil reunir as duas condições, é mais seguro se fazer temer que amar. Porque o amor se mantém por um vínculo de obrigações que, já que os homens são pérfidos, é rompido quando se ofereça ocasião de proveito particular; mas o temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais.



    Aprenda como e quando usar o Asterisco, dentro das regras.

     

    Não pensava que existissem regras para se utilizar asteriscos em textos quaisquer; mas existem sim! Descobri, no excelente site do Pedro Valadares - "Clube do Português" (link de visitação abaixo) - que aquele sinalzinho simpático que está sempre a nos socorrer, não é ou não deve ser produto da nossa vontade ou do acaso. Ele é oficializado na gramática do nosso idioma; tem hora, tempo e local certo para fazer parte dos nossos textos. Ora vejam só! 

    Eu que uso (usava) os asteriscos quase para ilustrar textos salvo, claro, aquelas situações clássicas, vou ter que me conter. Leiam a "aula" do Professor Valadares e aprendam a domar esse bichinho saliente que nos ajuda muito.

    Clique aqui e visite o website 

    Asterisco – quando usar?

    asterisco (*) é um sinal gráfico da língua portuguesa que gera muitas dúvidas sobre seu uso. Afinal, qual é sua função e quando ele deve ser utilizado? Confira abaixo as respostas dessas perguntas.

    O que é o asterisco?

    A palavra “asterisco” vem do latim “asteriscum”, que significa “estrelinha”. Sim, estrelinha, no diminutivo.

    Curiosamente, muita gente utiliza essa expressão para se referir ao sinal sem saber que se trata da etimologia do termo.

    Seu formato de estrelinha pode variar entre cinco e seis pontas e, além de ser utilizado no âmbito da língua portuguesa, o asterisco também é um caractere curinga na informática.

    Quais as funções do asterisco na língua portuguesa?

    Na língua portuguesa, o asterisco é usado após ou acima de uma palavra para fazer  um comentário ou uma observação relacionada ao termo em uma nota de rodapé.

    Exemplo:

    ·         O substantivo “alfabetização” é formado pelo verbo alfabetizar acrescido do sufixo -ção*.

    * O sufixo - ção é um sufixo nominal de origem latina que retrata ação ou resultado de ação.

    O sinal gráfico também pode indicar lacuna ou omissão em um texto, sobretudo substituindo um substantivo próprio. Para isso, basta repeti-lo três vezes.

    Exemplo:

    O autor do crime, ***, foi apreendido e depois encaminhado à delegacia.

    Além disso, o asterisco é inserido antes e no alto da uma palavra para indicar que se trata de uma hipótese. Isso significa que, embora seja provável, a mensagem não é comprovada.

    Exemplo:

    ·         Parecer, do latim *parescere.

    Por fim, o sinal também pode ser usado antes de uma frase para indicar que ela é agramatical, ou seja, não respeita as regras gramáticas. 

    Exemplo:

    ·         *Maria gosta uva comer e banana.

    Asterisco ou asterístico – como se escreve?

    Embora seja frequente ler e ouvir o termo “asterístico”, ele não existe na língua portuguesa. Portanto, não deve ser utilizado. A escrita e pronúncia correta do sinal (*) é asterisco.

    *

    Quer aprofundar seus conhecimentos na língua portuguesa? Então, continue seus estudos com a Gramática On-line do Clube do Português.