segunda-feira, 27 de junho de 2022

Impresso ou Imprimido... Qual a forma correta?





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Impresso x Imprimido – qual a forma correta?

Tanto impresso quanto imprimido são termos que existem na língua portuguesa. As duas palavras são formas possíveis do particípio do verbo imprimir. Neste artigo, vou explicar melhor essa situação e mostrar quando usar cada uma das grafias. Vejamos!

Verbos abundantes

Imprimir é um verbo abundante. Os gramáticos Celso Cunha e Lindley Cintra detalham melhor essa classificação:

São chamados de abundantes os verbos que possuem duas ou mais formas equivalentes. […] Na quase totalidade dos casos, essa abundância ocorre apenas no particípio.

 

Os professores explicam que, nesses casos, o verbo apresenta dois particípios: um regular (em geral, mais comprido) e outro irregular (mais curto). Veja alguns exemplos:

·         Imprimir – Imprimido (regular) x Impresso (irregular);

·         Expulsar – Expulsado (regular) x Expulso (irregular);

·         Eleger – Elegido (regular) x Eleito (irregular);

·         Benzer – Benzido (regular) x Bento (irregular);

·         Exprimir – Exprimido (regular) x Expresso (irregular).

Quando usar imprimido?

Cunha e Cintra ensinam que devemos usar o particípio regular na constituição de tempos compostos da voz ativa acompanhados dos verbos ter e haver.

Ex: Eu tinha imprimido meu trabalho hoje pela manhã.

Ex: Marta havia imprimido todas as páginas do livro.

Quando usar impresso?

Já o particípio irregular, segundo os gramáticos citados, deve ser utilizado, de preferência, na voz passiva com o verbo ser.

Ex: O livro foi impresso em páginas envelhecidas.

Observação

Cintra e Cunha destacam que, quando usamos o verbo imprimir no sentido de “produzir movimento” ou “infundir”, somente é permitido o uso do particípio regular (imprimido), independentemente de a frase estar na voz ativa ou passiva.

Ex: Foi imprimida enorme velocidade no carro.

Ex: Com a crise, foi imprimido um movimento de mudança na sociedade

Substantivo e adjetivo

Segundo as gramáticas Pilar Vázquez Cuesta e Maria Albertina Mendes da Luz, os particípios irregulares podem ser usados como adjetivo e substantivo. É o que ocorre com o termo impresso.

Nesses casos, é possível haver variação de gênero e de número. Veja:

Ex: Aquilo estava escrito em papeis impressos. (adjetivo)

Ex: O texto estava escrito em folhas impressas. (adjetivo)

Ex: Os impressos foram enviados para a editora. (substantivo)








domingo, 19 de junho de 2022

Você não vai morar em Marte... cuide da Terra!

 



Trago ao blog o luxo de um artigo de Hélio Schwartsman. Por que digo isso? Porque o colunista - na minha opinião - é o mais culto e completo que conheço, atualmente, na imprensa escrita brasileira.

Seus artigos, na Folha de São Paulo, são todos de altíssimo nível, seja no estilo, seja na diversidade de temas. Cada texto é uma dose de conhecimento e de cultura. Admiro muito o trabalho dele.

Nem sempre seus artigos cabem no blog. Diria que na maioria são textos fora do "core business" da Oficina de Gerência. Quando encontro algum logo aproveito a oportunidade. É caso deste.

Com uma abordagem diferente, o texto nos direciona ver a questão da sobrevivência do planeta terra fora dos parâmetros tradicionais de proteção ao meio ambiente (clima, poluição, explorações predatórias...).

Com base em um livro recente de Vaclav Smil, Schwartsman chama a atenção para um tema mais relevante ainda e que na opinião do autor será muito mais perigoso para a população do planeta Terra.

É um texto curtinho, mas que levará o leitor a pensar diferente sobre o que nos espera no futuro da humanidade.

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"How the World Really Works" ("Como o mundo realmente funciona), de Vaclav Smil, pode ser descrito como um destruidor de mitos. Valendo-se da boa e velha aritmética e de valiosos esclarecimentos sobre como suprimos nossas necessidades básicas, o autor traça um panorama realista dos desafios que temos pela frente.

Mudança climática, poluição e superexploração de recursos naturais são problemas graves, que cobram ações de todos nós, mas é precipitado afirmar que o fim do planeta ou da civilização esteja próximo. Não há risco, por exemplo, de o oxigênio da Terra acabar, como já sugeriu um presidente. Já água e comida são uma preocupação, mas não em relação à produção e sim à distribuição. Temos esses dois recursos em quantidades suficientes, mas os gerenciamos muito mal. Um terço dos alimentos produzidos estraga sem ser consumido.

A ilustração de Annette Schwartsman, publicada na Folha de São Paulo no dia 12 de junho de 2022, mostra um par de mãos semifechadas, uma diante da outra, que formam, com os dedos, um coração; no meio deste coração, em segundo plano, se vê o planeta Terra.
Ilustração de Annette Schwartsman para a coluna de Hélio Schwartsman, publicada na Folha neste domingo (12 de junho) - Annette Schwartsman

O aquecimento global é uma realidade e vai ser difícil limitá-lo aos 2°C. O problema é que somos uma civilização de combustíveis fósseis e livrar-nos deles é uma tarefa de séculos, não de anos nem de décadas. Nós provavelmente avançaremos de forma rápida para tecnologias sustentáveis na produção de eletricidade e transportes, mas isso é só parte da conta.

Os fertilizantes, indispensáveis para alimentar os 8 bilhões de humanos que habitam o planeta, e aço, cimento e plásticos, que dão a base material para nossa civilização, encapsulam enormes quantidades de carbono. E, se quisermos ser minimamente justos, isto é, estender aos bilhões de terrestres que ainda vivem na pobreza níveis de conforto semelhantes aos experimentados pelos habitantes de países ricos, então precisaremos produzir muito mais. Ao contrário da eletricidade, não há à vista nenhuma tecnologia sustentável para substituí-los.

E, como lembra Smil, contrapondo-se aos defensores de soluções mirabolantes, é da Terra que precisamos cuidar; nenhuma das pessoas que está lendo estas linhas vai se mudar para Marte.


sábado, 4 de junho de 2022

Sucesso nos negócios - quer algumas dicas? (revista Exame)

Bill Gates

 

Confesso que um dos meus "tocs" preferidos (e tenho alguns) é descobrir - onde quer que estejam - bons artigos, de revistas e publicações especializadas, sobre assuntos que possam interessar aos leitores da "Oficina de Gerência". Tenho uma expressiva coleção deles, aguardando oportunidades de publicação.

Este é um deles. O artigo, da jornalista Isabel Rocha (Exame) foi publicado recentemente pela revista e traz alguns conselhos de empreendedores de sucesso sobre como fizeram para seus negócios darem certo. 

Pessoalmente não gosto muito desses textos tipo "receita de bolo" com dicas óbvias para isso ou aquilo dar certo. Todavia essa matéria, além de ter sido produzida por uma jornalista especializada (clique aqui) está muito bem escrito e ilustrado. 

Para quem seja empreendedor ou pretende sê-lo ou mesmo os apaixonados e interessados nos temas de liderança e gestão, recomendo que usem esses poucos minutos de seu tempo e conheçam o texto. Boa leitura.



Os segredos de grandes empreendedores para ter sucesso nos negócios (por Isabel Rocha)

Busca por autonomia, ideias inovadoras, desejo de contribuir com a sociedade ou pura necessidade: seja qual for o motivo, o fato é que os brasileiros estão empreendendo mais.

De acordo com a última edição do boletim Mapa das Empresas do Ministério da Economia, embora mais de 484 mil empresas tenham fechado as portas no segundo quadrimestre do ano passado, outras 1.420.782 foram abertas — o que representa um saldo positivo de 936.229 durante o período. O número também é o maior da série histórica, iniciada em 2011, e 26,5% maior do que o observado no mesmo período de 2020. Veja no gráfico abaixo.

Histórico de abertura e fechamento de empresas no segundo quadrimestre (de 2011 a 2021) (Boletim Mapa das Empresas - 2º quadrimestre de 2021/Reprodução)

 

Os números são animadores e ajudam a comprovar a escalada do empreendedorismo no Brasil. Mas, ainda assim, não há como negar que abrir e gerenciar sua própria empresa pode ser um processo bastante desafiador.

Para quem está começando, olhar para os erros e acertos de outros empreendedores é uma maneira de aperfeiçoar estratégias, evitar erros e adquirir conhecimentos importantes.

“Costumo dizer que o empreendedorismo pode ser um caminho asfaltado e com luz. Alguém que já passou por esse caminho, que antes era cheio de pedras e escuro, pode te ajudar compartilhando a experiência para que você adote soluções mais simples”, afirmou Carol Paiffer, CEO da Atom (ATOM3) e jurada do Shark Tank Brasil em entrevista à EXAME.

Pensando nisso, separamos, abaixo, algumas dicas de grandes nomes do empreendedorismo para ter sucesso nessa trajetória. Confira.

1. Seja flexível

A biografia de grandes empreendedores prova que adversidades fazem parte do caminho e que muito de seu sucesso está relacionado justamente à capacidade de contornar os obstáculos.

Não à toa, a capacidade de se adaptar e estar disposto a testar novas possibilidades já foi citada como uma das habilidades imprescindíveis para quem deseja empreender por ninguém menos que Jeff Bezos.

“Se você não for flexível, você vai bater sua cabeça contra a parede e não vai ver uma solução diferente para um problema que você está tentando resolver", afirmou o fundador da Amazon.

2. Fique de olho nas finanças

Em uma coluna publicada na EXAME, a empreendedora e especialista em finanças Nathália Arcuri discorreu sobre a importância de um bom planejamento financeiro para que sua empresa possa enfrentar períodos de crise.

“Se nós, empreendedoras e empreendedores, vivemos em um mundo incerto, volátil e caótico, que tal preparar nosso barquinho para pescar na próxima tormenta em vez de sermos engolidos por ela? Ela vai vir, pode ter certeza. E é por isso que, como dona ou dono do seu negócio, você precisa estar de olho no caixa”, escreveu.

De fato, fazer um bom acompanhamento das finanças empresariais é indispensável para manter a operação em tempos de dificuldades — e também para identificar os momentos que favorecem a realização de novos investimentos no negócio. Nesse sentido, ferramentas que auxiliam na gestão financeira podem ser grandes aliadas dos empreendedores.

3. Mantenha-se curioso

Em um mundo em constante transformação, a habilidade de continuar aprendendo é outro diferencial importante para quem busca o sucesso no mundo dos negócios.

“Para o estudante curioso, essa é a melhor época, pois sua capacidade de constantemente refrescar seu conhecimento com podcasts ou aulas online é melhor do que nunca”, disse Bill Gates em 2019. Para o cofundador da Microsoft, aqueles que estão em constante processo de aprendizado, também estão caminhando para transformar seus sonhos em realidade.

4. Preste atenção nos clientes

Outro aprendizado trazido por Gates tem a ver com a experiência do cliente. “Seus clientes mais insatisfeitos são sua maior fonte de aprendizado”, disse o empresário certa vez.

Incentivo ao engajamento nas redes sociais, pesquisas de NPS (sigla em inglês para Net Promoter Score) e um SAC 2.0 bem realizado são apenas algumas das ferramentas que as empresas podem utilizar para se aproximar do público, entender seus feedbacks e aprimorar produtos e serviços. 

  • Para ler a matéria no formato original da revista Exame clique aqui


domingo, 15 de maio de 2022

Como os EUA lucraram com tráfico de africanos escravizados para o Brasil (BBC Brasíl)

 


Tratar o tema da escravidão dos negros no Brasil é sempre abordado com muitos e delicados cuidados. Creio que existem motivos ocultos, nos meios acadêmicos mais conservadores, que tendem a evitar aprofundar esse assunto; uma espécie de fuga, um tabu. Aparenta ser como um conjunto invisível de vergonhas históricas por ter que tocar nessa chaga que ainda desonra a sociedade brasileira, herdeira dos antigos senhores de escravos oriundos da África. É uma questão ainda não resolvida (ou mal resolvida) no inconsciente coletivo dos brasileiros.

Obviamente trato do assunto como um leigo e curioso. Sempre me atraiu ler e conhecer essa realidade que nossos pesquisadores, professores, intelectuais, jornalistas e sociedade em geral procuram evitar em seus círculos de interesses. Não me refiro aos trabalhos e pesquisas acadêmicas de historiadores, sociólogos, antropólogos e afins. Existem, sim, muitos textos sérios sobre o tema da escravidão no Brasil  (clique aqui); todavia, falta a informação real e verdadeira para o grande público. Ainda está por vir...



Não é comum ter-se, à disposição da sociedade interessada, do cidadão comum, trabalhos de profundidade, sejam pesquisas ou mesmo textos romanceados e até  filmes e as tão apreciadas novelas que tenham a coragem de encarar a verdadeira face da escravidão; principalmente com ampla divulgação sobre os horrores aos quais eram submetidos os negros escravos. 

Tudo, até onde se conhece, é tratado com muita "parcimônia" e com muita superficialidade, diria mesmo com muitas mentiras sobre a verdadeira face da época da escravidão dos negros, sequestrados dos seus lares, nas suas terras africanas e transportados de forma desumana e cruel como cargas nos navios negreiros e vendidos em praça pública para a classe dominante no Brasil das  épocas colonial (primeira metade do século 16) até o final da era imperial (final do século 19). Sem se falar no terror permanente que era ser tratado pior do que animais nos locais para onde eram vendidos.

A escravidão dos milhões de habitantes do continente africano foi um período que tomou conta do "mundo civilizado" de então. Veja abaixo um mapa que mostra as rotas do tráfico negreiro a partir da África.


Não vou encompridar muito o texto dessa apresentação para o artigo que transcrevi do site da BBC News Brasil (abaixo) sob o título "Como os EUA lucraram com tráfico de africanos escravizados para o Brasil". Quero apenas completá-lo com um outro texto que coloquei sob forma de imagem, que é o prefácio do livro Escravidão no Brasil (edição mais recente) do professor e historiador Jaime Pinsky.  
Há muito, muito mesmo, que se conhecer sobre a verdade da escravidão no Brasil. Só recentemente autores e pesquisadores - principalmente de origem afro-brasileira - estão se aventurando a descortinar a escuridão e as trevas que escondem esse pedaço triste da História do Brasil.

Para quem interessar o assunto e defendo que deveria interessar a todos os brasileiros conscientes, o texto da jornalista Marília Marasciulo - publicado pela BBC Brasil - é um excelente exemplo de pesquisa e história que está faltando para interessar mais a sociedade na temática da escravidão no Brasil.


O navio negreiro – ou “tumbeiro” – foi o tipo de cargueiro usado para trazer mais de 11 milhões de africanos para serem escravizados na América 


Como os EUA lucraram com tráfico de africanos escravizados para o Brasil

De Florianópolis para a BBC News Brasil - Marília Marasciulo



Entre 1831 e 1850, navios com a bandeira norte-americana corresponderam a 58,2% de todas as expedições negreiras com destino ao Brasil 

Com cerca de 450 africanos da região do rio Congo, a escuna norte-americana Mary E Smith foi a última a tentar desembarcar escravizados no Brasil. No dia 20 de janeiro de 1856, ela foi capturada em São Mateus, no Espírito Santo, em uma operação que deixou claro que a Lei Eusébio de Queiroz, aprovada em 1850 proibindo a entrada de escravos, de fato pretendia acabar com o tráfico de escravos no país. Antes dela, tratados assinados por pressão da Inglaterra após a Independência ficaram conhecidos como "leis para inglês ver", pois na prática as próprias autoridades locais eram coniventes com o contrabando.

Pesando 122 toneladas e com um valor estimado em US$ 15 mil dólares, a Mary E. Smith foi construída em Massachusetts especificamente para o tráfico negreiro. Antes mesmo de deixar Boston rumo à África, no dia 25 de agosto de 1855, a escuna chamou a atenção das autoridades britânicas e norte-americanas. Houve até uma tentativa de prisão na saída, mas o capitão, Vincent D. Cranotick, conseguiu expulsar os intrusos e partir.

Poucas embarcações do tráfico foram tão monitoradas quanto a Mary E. Smith. A Marinha no Rio de Janeiro, ao receber a correspondência dos EUA, alertou oficiais britânicos, brasileiros e americanos sobre a chegada iminente da escuna. Ao se aproximar da costa, foi abordada pelo navio de guerra Olinda e levada para Salvador, na Bahia.

A situação era preocupante. Majoritariamente jovens com entre 15 e 20 anos, os africanos padeciam de diversas doenças — nos 11 dias de viagem entre São Mateus e Salvador, mais 71 morreram. Quando os oficiais baianos condenaram a Mary E. Smith e levaram os sobreviventes para a cidade, a população teria entrado em pânico: desde agosto do ano anterior, Salvador enfrentava uma epidemia de cólera, e acreditava-se que a presença dos africanos doentes pioraria a situação. Mais africanos morreram nas semanas seguintes. No dia 14 de fevereiro, dos 213 que sobreviveram, 88 continuavam muito doentes, inclusive de cólera.

O capitão também morreu na chegada da Mary E. Smith a Salvador, escapando da acusação por tráfico ilegal de escravos. No dia 30 de junho de 1856, 10 membros da tripulação foram julgados — destes, 5 eram cidadãos norte-americanos. As penas variaram de 3 a 5 anos de prisão, além do pagamento de uma multa de 200 mil réis (algo em torno de US$ 112 mil) para cada africano que teria entrado no Brasil.

Recursos indiretos

A história da Mary E. Smith é simbólica não só por marcar o fim do tráfico de escravos no país, mas por indicar a participação dos Estados Unidos na atividade ilegal. Entre 1831 e 1850, navios construidos nos EUA corresponderam a 58,2% de todas as expedições negreiras com destino ao Brasil. Muitos deles não chegaram a usar a bandeira americana e foram comandados por traficantes de outras nacionalidades. A estimativa é de que tenham transportado quase 430 mil africanos — foi o Camargo, um brigue americano, aliás, que em 1852 desembarcou com sucesso os últimos escravizados no país.

Ao contrário dos africanos da Mary E. Smith, que foram emancipados e submetidos à tutela do Estado por 14 anos, os cerca de 500 que chegaram ao porto do rio Bracuí, na região de Angra dos Reis, não tiveram o mesmo destino. "Após desembarcarem, pela proximidade da Serra do Bananal onde havia plantações de café, os senhores começaram a escondê-los na senzala", diz a professora de História Martha Campos Abreu, da Universidade Federal Fluminense (UFF)

As autoridades locais chegaram a tentar reaver os escravizados, decretando pela primeira vez uma busca pelas fazendas, em uma demonstração do que estaria por vir com a Mary E. Smith. Mas a tentativa foi quase em vão: segundo a professora de História Beatriz Mamigonian, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), somente cerca de 70 foram recuperados. O comandante do brigue, Nathaniel Gordon, por sua vez, conseguiu escapar. Após atear fogo no Camargo, fugiu para os EUA — uma década depois, foi enforcado por sua participação no tráfico, único norte-americano a sofrer pena capital pelo crime.

Navios com bandeiras americanas eram dos poucos imunes à fiscalização inglesa

BBC Lê

Em 1896, o sociólogo W.E.B. Du Bois chamou a atenção para as relações entre os EUA e o Brasil no período do tráfico ilegal. "O tráfico americano de escravos finalmente passou a ser conduzido principalmente por capital dos Estados Unidos, em navios dos Estados Unidos, comandados por cidadãos dos Estados Unidos e sob a bandeira dos Estados Unidos", escreveu Du Bois.

Autor de O Sul mais distante: os Estados Unidos, o Brasil e o Tráfico de Escravos Africanos (Companhia das Letras, 2010), o historiador Gerald Horne engrossa o coro de críticos americanos ao papel do país na escravidão brasileira. "O governo brasileiro deveria buscar reparação, porque esses traficantes de escravos estavam violando as leis do Brasil e praticando uma atividade ilegal. O fato de que aconteceu 170 anos atrás não diminui a reclamação, não existe um estatuto de limitação na legislação internacional por crimes contra a humanidade, e o contrabando era um crime contra a humanidade", disse Horne em entrevista à BBC News Brasil. "Mas há relutância em trazer justiça para, pelo menos, os brasileiros que são descendentes dos escravos trazidos por navios norte-americanos."

O historiador da UFF Leonardo Marques, um dos maiores pesquisadores brasileiros da participação dos EUA na escravidão brasileira, aponta algumas ressalvas. Para Marques, os recursos norte-americanos estiveram mais presentes a partir de 1820, mas de forma indireta e ainda muito ligados a grupos específicos de contrabandistas portugueses. "Por muito tempo, acharam que eram americanos, mas hoje sabemos que muitos eram portugueses que chegaram a adquirir a cidadania para conduzir o tráfico", explica o professor, que teve a tese de doutorado sobre o assunto na Universidade Emory, The United States and the Transatlantic Slave Trade to the Americas 1776-1856, transformada em um livro publicado pela Yale Press em 2016.

Segurança da bandeira

O interesse nos Estados Unidos se dava por um conjunto de fatores. O primeiro era a qualidade das embarcações. Desde o período colonial, a região da Nova Inglaterra fortaleceu a tradição de construção naval, competindo com os próprios britânicos, e as guerras contra os colonizadores também contribuíram para o desenvolvimento dos barcos. "A qualidade deles era muito alta, eles eram a vela, mais rápidos, e aos poucos foram desbancando a própria frota britânica", conta Marques. Além de economizar tempo nas viagens, as embarcações eram consideradas capazes de despistar perseguidores da Marinha Britânica e piratas.

A bandeira americana era também uma das poucas imunes a vistorias a bordo. A partir de 1807, a Inglaterra começou a fechar o cerco contra o tráfico de escravos — mais do que razões humanitárias, havia diferentes interesses econômicos por trás da pressão, entre os quais criação de mercado consumidor para produtos industrializados. Embora internamente tanto abolicionistas quanto escravistas (que acreditavam já ter uma população de africanos interna suficiente e autossustentável) tenham concordado com as medidas, os EUA se recusaram a autorizar vistorias em seus barcos, acusando os britânicos de ferirem a soberania da ex-colônia.

Para os criminosos, a situação era perfeita: navios rápidos e com uma bandeira imune à fiscalização inglesa. Não à toa, conta Marques, no período havia várias companhias dos EUA que vendiam navios para traficantes no Rio de Janeiro. "No Jornal do Comércio, havia anúncios de navios como 'excelentes para transporte de escravatura'", diz o historiador.

A situação chegou a gerar alguns incidentes diplomáticos, dividindo as autoridades entre as que acreditavam que a venda dos barcos e o uso da bandeira era legítima, e os que achavam que não. Em 1844, Henry Wise foi nomeado ministro dos EUA no Brasil e, em conjunto com o cônsul George Gordon, buscou eliminar a bandeira do país do tráfico. Entre as medidas, passaram a enviar envolvidos no tráfico para serem julgados nos EUA e promoveram o desmantelamento de esquemas de cidadãos norte-americanos que vendiam ou fretavam embarcações para traficantes brasileiros.

Consumo financiado pela escravidão

Um dos esquemas envolvia a companhia Maxwell Wright & Co, que combinava duas atividades que acabaram interligadas ao longo da década de 1840: de um lado, vendiam os navios para traficantes de escravos; de outro, exportavam o café produzido pelos mesmos escravos de volta para os Estados Unidos, onde o mercado consumidor crescia. Neste sentido, observa Marques, a participação dos EUA na escravidão brasileira transcende a questão econômica. "A identidade nacional que estava sendo construída no país, do americano tomador de café em vez de chá, está amarrada com a escravidão", diz.

Ilustração mostra configuração de um navio negreiro americano

A professora Mamigonian, cuja pesquisa se concentra na abolição do tráfico e nas transformações da escravidão no século 19, complementa o raciocínio: "vemos um elemento muito próprio do capitalismo do século 19, quando a ascensão do consumo vai na contramão do abolicionismo." O problema, neste caso, não era restrito aos EUA. O próprio Reino Unido, que em 1833 aboliu a escravidão, continuou consumindo produtos brasileiros produzidos com mão de obra escrava e fornecendo itens industrializados para o comércio ilegal na África.

O crescimento do mercado consumidor para os produtos brasileiros, ao mesmo tempo em que vinculou os americanos ainda mais profundamente à escravidão no Brasil, corrobora a tese de que o tráfico existiria com ou sem a presença dos EUA. Em suas pesquisas, Marques observa que, embora uma cláusula no acordo entre EUA e Inglaterra permitindo a revista das embarcações possivelmente diminuiria a presença dos norte-americanos no tráfico, o controle da compra e venda de navios permaneceria ambíguo. Não à toa, traficantes portugueses acabaram criando suas próprias redes, principalmente em Nova York, adquirindo inclusive a cidadania do país.

A conclusão dos especialistas é que, enquanto houvesse demanda pelos produtos do trabalho escravo no mercado mundial e a escravidão se mantivesse um mercado lucrativo (um escravo comprado na África por US$ 40 valia em terras brasileiras algo entre US$ 400 a US$ 1.200, em torno de US$ 48 mil), haveria criminosos dispostos a manter o sistema ativo. Tanto é que, quando a captura do Mary E Smith finalmente sinalizou que o tráfico para Brasil não era mais um bom negócio, muitos traficantes voltaram as atenções para Cuba, que adotou medidas semelhantes somente em 1862.

O fim do tráfico nas Américas, por sua vez, só ocorreu de fato com a abolição da escravidão no Brasil, em 1888, último país do Ocidente a libertar africanos escravizados.

Clique aqui se se interessar em conhecer o texto no site de origem.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

O Farol da responsabilidade (Vídeo)






Neste vídeo tem de tudo:


  • Comprometimento com a missão
  • Senso de responsabilidade
  • Ação sob máxima pressão
  • Dedicação ao trabalho
  • Decisão sob pressão
  • Solidariedade na crise
  • Trabalho em equipe

E deve ter mais alguns insights que você pode extrair como aprendizado ao assistir os poucos minutos do vídeo. Procure-os...

Gosto de púbicar esse tipo de vídeo exatamente para provocar os leitores e ilustrar lições que (principalmente) os mais jovens podem extrair e refletir sobre situações que fatalmente irão viver em suas carreiras.

Aproveitem para buscar essas "emoções" no vídeo e internalizá-las em suas próprias vivências. Acredite, é um excelente exercício. Experimente e comente ao final do post.