15 de out. de 2020

O Guardião do Castelo





H

á muitos anos recebi de um amigo dileto, bem mais velho que eu, esse texto maravilhoso. Lembro-me que fiquei tão fascinado que a todo o momento, em minhas preleções e reuniões, referia-me a ele para citar exemplos de comportamento e de atitudes. Acho que exagerei tanto que alguns companheiros passaram a me apelidar de "O Guardião do Castelo".

Quando comecei o meu projeto de blog (2007) foi quase automático que um dos primeiros textos que postei foi o próprio. Isso aconteceu em novembro de 2007. 

Em 2011, navegando pelos meus antigos posts (coisa que faço frequentemente e com enorme prazer) deparei-me novamente com o Guardião do Castelo. Não tive dúvidas...

Agora (2020), mais experiente, tive oportunidade de melhorar o texto dando-lhe um toque mais descritivo e ilustrando com imagens lindas e apropriadas. Gostei muito do resultado.

A mensagem é simples e direta. Com muitas variações de interpretações. O texto está fartamente exposto em vários links da internet (Google), mas com uma apresentação única, copiada ipsis literis uns dos outros, pobre e sem a imaginação da cena e dos movimentos que procurei colocar aqui. 

Para quem já conhece a metáfora, por favor, não perca a oportunidade e releia-a; e quem ainda não a leu - principalmente as gerações mais jovens - posso apostar que irá gostar tanto quanto eu imagino. 

Vai dar muito que pensar em quantas vezes você deixou de assumir a atitude o que o discípulo tomou para resolver o enigma colocado e assumir a função que estava em disputa. Você teria a iniciativa que ele teve?

 


O Guardião do Castelo 
http://paizo.com/image/content/LegacyOfFire/PZO9021-ScholarRayhan.jpg

Num castelo longínquo e isolado nas montanhas que abrigava um mosteiro  a manhã foi interrompida com a notícia da morte do seu Guardião.  

Tão repentina quanto inesperada a morte daquele monge guerreiro pegou o mosteiro de surpresa. Era urgente que um substituo fosse rapidamente encontrado. 

O Mestre do Castelo , muito apreensivo, fez tocar o sino sagrado e convocou, então, todos os seus discípulos ao salão principal do castelo para escolher quem seria o novo guardião. Com a tranquilidade inerente aos velhos mestres reuniu o Conselho de Anciãos e sentenciou: 

- Assumirá o posto aquele que resolver mais rapidamente  o problema que irei lhes apresentar. 

Era uma honra suprema ser o Guardião do Castelo. Ele seria o segundo homem na hierarquia da comunidade. A segurança do castelo e do mosteiro dependiam diretamente do Guardião. Teria de ser alguém dotado das melhores qualidades.  Decisão, coragem e destreza eram essenciais. 

O mestre pensou, enquanto fazia os preparativos, que os discípulos não estavam preparados ainda. Como então descobrir entre eles o escolhido?

Mandou então colocar  uma magnífica mesa no centro do enorme salão em que iriam reunir-se, forrou com a  toalha de linho mais branca  e sobre ela pousou delicadamente um enorme e lindo vaso da mais fina  porcelana, muito raro, com enormes rosas amarelas de extraordinária beleza a enfeitá-lo.

Esperou todos os discípulos chegarem e após um prolongado silencio disse, apontando para a mesa, o vaso e as flores: 

- Aqui está o problema. 

Enquanto todos, como que pegos de surpresa, ficaram olhando a cena sem compreender direito o que estavam vendo o mestre pensou: 

-Será que vou encontrar o Guardião em meio a esses discípulos tão jovens? 

Ali estava o  vaso belíssimo, de valor inestimável, com as maravilhosas flores ao centro. Solitário sobre a mesa. Tão inofensivo quanto belo. Como poderia ser um problema? Pareciam pensar todos. O que representaria?! O que fazer?! Qual o enigma que o mestre estava lhes propondo?!  O que fazer?!

No instante seguinte com a velocidade de um felino e a determinação de um guerreiro um dos discípulos sacou a espada, olhou o Mestre, encarou os companheiros, dirigiu-se a passos firmes para o centro da sala. Parou diante da mesa e a  lâmina brilhou no espaço faiscante. Um relâmpago em direção ao vaso. 

Destruiu tudo, o vaso maravilhoso e as lindas rosas amarelas.  Com um só golpe certeiro  e preciso transformou o cenário em pedaços de porcelana e pétalas das rosas no piso do salão.

Embainhou  calmamente a espada em seguida. Com a mesma determinação  o discípulo, em silencio, voltou ao seu lugar sob os olhares perplexos de seus companheiros.


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O  Mestre dirigiu-se ao centro do salão com um brilho de satisfação nos olhos e disse orgulhoso dirigindo-se ao discípulo.

- “Você será o novo Guardião do Castelo.”




Este é um antigo texto de domínio público, sem autor conhecido, muito utilizado como metáfora por consultores e palestrantes sobre liderança e atitude. Existem várias mensagens que podem ser dele extraídas e uma delas considero ser a principal: 
  • "Não importa qual a estrutura ou a circunstância do problema que lhe seja apresentado para você seguir em frente, mesmo que seja algo de alto valor material ou sentimental, se for um obstáculo e se desejar o objetivo, precisa ser resolvido e eliminado. Um problema, seja de que tipo for, será sempre um problema. Precisa ser enfrentado.
Você concorda com esse aforismo? 

Ocorre que a maioria de nós carrega durante a vida inteira o peso das coisas que foram  importantes nas suas experiências passadas, mas que hoje ocupam espaços inúteis em seus  corações e mentes. Espaços que são indispensáveis para recriar a vida.

A mensagem é que você "limpe" a sua vida; comece pelos espaços físicos à sua volta (caixas, gavetas, armários, documentos, fotos...). Continue ceifando os problemas  até chegar às pessoas do  passado que não fazem mais sentido estar ocupando espaço em seu coração  neste momento. 

Não será nada fácil! O sentimento de apego que muitos de nós têm por suas lembranças é sólido e ninguém renunciar a eles. Fazem parte de nossas vidas. Mas se forem problemas para vocês avançar na vida... terá de resolver o dilema. 

O que aprendemos com a experiência de vida é que o passado deve servir de lição, como referência,  para ser lembrado, mas não para ser revivido. 

Use as “experiências" do passado no presente, para reconstruir o seu futuro.”


Esta é uma edição mais aprimorada do post que publiquei originalmente no blog em duas ocasiões - 2007 e 2011. Volto a publicá-lo agora, 2020; e declaro minha absoluta paixão pelas lições que encerra e pelo respeito que tenho das vezes em que o apliquei em minha vida, sempre com sucesso e bons resultados.

Se deseja ver uma das versões da história que está na internet (em ppt), clique no link abaixo e ligue o som do seu computador, tablet ou celular:

 

9 comentários:

  1. "Não importa qual a estrutura ou a circunstância do problema, mesmo que seja algo de alto valor material ou sentimental, se for um problema, precisa ser eliminado. Um problema seja de que tipo for será sempre um problema".

    Longe de mim a pretensão de ser o dono da verdade, mas, se olharmos por outros ângulos, a metáfora lembra algo maquiavélico também: os fins justificam os meios. Especialmente, quando podemos entender que, por exemplo, no lugar de um vaso com a flor poderia estar aquilo que vou chamar de pressuposto legal, moral ou ético, isto é, o interesse da coletividade. Por não terem limites internos no exercício do poder decisório, muitos gestores entendem a metáfora apresentada como indutora de soluções cirúrgicas para todos os problemas. Se a cada “vaso raro com bela flor” que se apresente como sendo o problema, formos tomar a decisão da solução radical e pronta do espadachim, por certo nossos gestores futuros estarão fadados a administrar organizações tão obsoletas e simplistas como os mosteiros. O primeiro engano da metáfora está no seguinte ponto: "...se for um problema, precisa ser eliminado." Quer dizer, não pode ser transformado? Pergunto-lhes, por qual razão um problema deve ser solucionado pelo processo da eliminação, no sentido da destruição total da causa? Certamente, uma resposta que pode parecer verdadeira é: por ser a única maneira de se ter a garantia de que a causa não reaparecerá e, portanto, o problema não mais poderá se repetir. Certo? Respondo: errado! Quantas vezes cada um de nós sujou as fraldas até aprender a usar a privada? Quantas vezes cada um de nós urinou na cama até aprender a controlar a bexiga? Quantas e quantas vezes aprendemos a fazer algo certo usando o caminho pedagógico da "tentativa e erro"? Assim acontece igualmente nas organizações, quando os processos novos surgem em substituição aos antigos. Nem tudo é possível dominar 100% nos sistemas complexos e probabilísticos, como o são as empresas. As variáveis são assim chamadas, justamente por serem inconstantes, mormente as externas. O segundo erro da metáfora está na situação que foi apresentado pelo Mestre, como sendo algo sem qualquer possibilidade de discussão. Ele foi dogmático. Mas como não colocar em discussão, se a decisão de solução caberá a quem não participou do processo de análise da relação causa & efeito. Não há, portanto, como desconhecer a importância das causas relacionadas aos efeitos, quando estamos buscando uma solução pelo caminho da analise de um problema. A experiência dos mais importantes pesquisadores aponta que não há uma relação direta entre a complexidade ou simplicidade de um problema, com a simplicidade ou complexidade de solução para o mesmo problema. Antes e muito antes de se pensar em adotar uma solução rápida, radical e cruenta, como sugere a reengenharia da espada sobre o vaso, devemos caminhar entre as alternativas mais sábias, igualmente curativas, porém amplamente discutidas e analisadas por todos, até mesmo porque as responsabilidades social, ambiental e cultural, amparam essas medidas cautelares. Nossas empresas não são como velhos mosteiros encarapitados nos distantes montes, a sugerir um sistema fechado e autônomo. Muito ao contrário, cada vez mais, nossas organizações são abertas e transparentes. Não sei por qual motivo me invade a mente, neste momento, a história do julgamento de Salomão, aquele da criança disputada por duas mulheres que se diziam ser a verdadeira mãe. Lá também, se não me falha a memória, é chamado um espadachim para cortar a criança ao meio, como sentenciava o grande rei. Daria metade da criança para cada uma das mulheres e..., pronto, teria sido "eliminado" o objeto da disputa, "Não importa qual a estrutura ou a circunstância do problema, mesmo que seja algo de alto valor material ou sentimental". Sabemos todos que a sabedoria de Salomão era maior do que a do noviço Guardião do Castelo. Depois dessa, fico a imaginar se algum dia tal espadachim teria chegado a ser um Rei, como Salomão.

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  2. Vou ter que ler com calma tudo isso...

    JB

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  3. Agora li com mais calma.
    O lugar comum é conviver com um problema, protelando decisões e ações. Nosso país está aí como prova cabal do que aqui afirmo.
    O texto não pode ser interpretado literalmente. Radicalizar é uma das opções que geralmente não é adotada. Mas deveria ser.
    Tem a velha expressão que diz "matar o mal pela raiz".
    É a expressão, em uma única frase, do resumo da mensagem do texto do Guardião do Castelo.
    Quanto a "Muito ao contrário, cada vez mais, nossas organizações são abertas e transparentes." não sei em que mundo vive o missivista.
    Transparente ???
    Sei, mo meu é que não é.

    Saudações tardias,

    JB

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  4. Caro Brain
    Grato, mais uma vez, pela presença e riqueza do comentário. O "Guardião do Castelo" é assim mesmo. Provoca discussões e polêmicas. Utilizo-me muito do texto em minhas preleções e sempre tem alguém que interpreta de uma maneira diferente de outro.
    Gosto muito da interpretação que você deu, ou seja, não literalmente.
    O discipulo ao quebrar o vaso cometeu um ato radical? Como diria aquele famoso personagem da Escolinha do Prof. Raimundo: - Há controvérsias...
    E fico por aqui deixando um abraço. Volte sempre.

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  5. Pedro Pereira, Seu Saraiva...
    Francisco Milani deixou saudades.

    JB

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  6. Excelente texto.
    Continua sempre atual.

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    1. Obrigado amigo. Quem continua sempre se atualizando é você. Grande abraço.

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  7. Caro Drummond,
    O Guardião do Castelo me remete uma lição aprendida na Faculdade de Engenharia da UnB.
    Durante uma aula, um professor perguntou a turma: "como se coloca uma girafa na geladeira?" Todos ficaram surpresos e cada aluno providenciou prontamente uma resposta, contudo, nenhuma delas era a correta.
    Então o professor Néstor, um argentino muito sério e pouco carismático, mas que ensinava mecânica dos fluidos brilhantemente respondeu: “é só abrir a porta da geladeira e colocar a girafa dentro!”
    Todos riram e começaram a contra argumentar, então o professor Néstor, com um sotaque típico portunhol respondeu “os problemas sempre devem ser resolvidos da forma mais simples, não compliquem as coisas e nem achem que os problemas são maiores que eles verdadeiramente são.”
    Nossa, como aquilo foi impactante para mim e me abriu os olhos!
    Creio na similaridade dessa história com O Guardião do Castelo, pois devemos aprender a resolver problemas e não complicar demais as situações que vamos enfrentar.
    Ademais, concordo plenamente com o aforismo apontado por você, uma vez
    que a maioria de nós carrega durante a vida inteira o peso das coisas que foram importantes em nossas experiências passadas.
    No entanto, aprendi a não ser vitimista e, também, não permito que coisas inúteis em tomem espaço em minha mente, admito que as vezes não é fácil, mas é um exercício de plenitude e propósito que devemos fazer se quisermos realizar algo fora da caixa e da curva!

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    1. Estimado Leandro,
      Primeiramente quero te agradecer pelo comentário na Oficina de Gerência. Sei que és um assíduo visitante e leitor do blog e isso muito me envaidece porque conheço e respeito muito a tua competência.
      Em segundo lugar quero elogiar o teu texto. Clareza, conteúdo e objetivo estão presente no comentário.
      Volte sempre. Comentários como o teu enriquecem enormemente o blog.
      Até a próxima.

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