A bola começou finalmente a rolar, mas o verdadeiro espetáculo da Copa do Mundo de 2026 corre o risco de acontecer fora das quatro linhas — ou em manifestações explícitas dentro delas. O que estamos presenciando nos bastidores é uma profunda vergonha para qualquer amante do esporte. O governo norte-americano transformou o maior espetáculo da Terra em um cenário de restrições arbitrárias, hostilidade migratória e uso político.É inexplicável, injustificável e de baixíssimo nível. Delegações inteiras, árbitros e torcedores — que conquistaram o direito legítimo de estar ali, honrando as bandeiras de seus países — estão sendo recebidos com desrespeito na casa que deveria acolhê-los. Vimos coisas deploráveis e toscas neste início de evento, como os problemas com o árbitro somaliano e as restrições impostas à delegação do Irã.
Não estou aqui para protestar contra o governo de Donald Trump em si; as escolhas políticas dos americanos são problema deles. Protesto, sim, porque o esporte mais popular do mundo está sendo vilipendiado justamente na sede principal do torneio, e a dona do show está calada.
O que torna o cenário ainda mais revoltante é o silêncio covarde da FIFA. A federação finge neutralidade enquanto o evento é usado como palanque de sportswashing, mostrando que o dinheiro dos patrocinadores pesa mais do que os direitos humanos. Ao aceitar passivamente os bloqueios de vistos e o clima de intimidação, a liderança da entidade lava as mãos e se recusa a defender a integridade da sua própria competição. Quem garante, por exemplo, que o ICE (serviço de imigração americano) não se posicione nos portões dos estádios caçando torcedores em busca de indocumentados?
Se essas manifestações acabarem suplantando o objetivo final e o brilho técnico do torneio, a culpa jamais será de quem protesta em nome da dignidade. A culpa será exclusivamente de quem permitiu que o futebol fosse sequestrado e transformado em blindagem ideológica. Essa não será apenas a Copa dos 48 países; será, acima de tudo, a Copa da resistência contra a omissão dos engravatados.
O novo espaço "Oficina na Copa" estará de olho na bola, mas não fechará os olhos para a história. Pelos gramados, pelas bandeiras legítimas e pelo futebol puro: o jogo começou, mas a resistência, pelo menos aqui, também.
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Adorei seu comentário,tudo verdade,tenho acompanhado as rádios,e os jornalistas radialistas tem comentado exatamente o que você descreveu e comentando a omissão da FIFA.Parabéns pelo comentário 👏🏻👏🏻👏🏻Angela D Martinelli
ResponderExcluirObrigado, Angela. Volte sempre. Seu comentário e presença no blog são sempre bem-vindas.
ExcluirConfesso que concordo com boa parte do texto. Se realmente estamos vendo delegações, árbitros e torcedores enfrentando dificuldades para participar de uma Copa do Mundo, é natural esperar uma posição mais firme da FIFA.
ResponderExcluirMas o que mais me chama a atenção é que essa discussão não começou agora. Quando penso em Copa e política, lembro imediatamente de 1978 na Argentina, de 2018 na Rússia e de 2022 no Catar. Em diferentes contextos, sempre houve o debate sobre até que ponto a FIFA fecha os olhos para questões que vão além do futebol.
Por outro lado, também acho importante reconhecer que existe a questão da soberania. A FIFA não governa países e não tem como simplesmente ignorar ou revogar leis nacionais. O ponto, para mim, está menos em querer que a entidade se sobreponha aos governos e mais em discutir quais compromissos ela deveria exigir de quem recebe o maior evento esportivo do planeta.
Enfim, concordo com a preocupação levantada pelo texto. Só acrescentaria que o caso de 2026 me parece mais um capítulo de uma história antiga, e não exatamente uma novidade.
Ótimo comentário, Maurício. Na verdade, o que devemos esperar numa Copa do Mundo, nesse aspecto? Está faltando que a FIFA, nas próximas copas (2030, 2034 e seguintes), possa deixar isto mais claro para evitar essas polêmicas que só empanam o objetivo dessa reunião de povos, identidades e culturas que é a essência de todas as copas, de todos os esportes. Serve, também, para as olimpíadas que estão aí, na porta; e serão lá mesmo, nos EUA. Não é mesmo?
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