
Sejamos francos: uma derrota do Brasil por uns 2 a 0 no primeiro tempo não
teria sido surpresa pelo futebol apresentado. Para um grupo de estrelas
milionárias, acostumadas a decidir finais nos maiores clubes do mundo, chega a
ser patético alegar
"ansiedade" para justificar uma atuação tão bisonha.
Confesso que a mim não surpreendeu. Acompanho futebol, desde 1958. Cheguei a trabalhar na imprensa esportiva (rádio,
jornal e TV, em Recife) por 7 anos. Exponho isso, não por vaidade, mas
levei em conta que trazer minha vivência pessoal ao texto é o que, considero,
confere certa autoridade ao meu argumento. Gosto de me ver, como "torcedor
profissional" e me manter na ativa; ainda não me aposentei (😊). Traduzindo: Já esperava a dificuldade contra o Marrocos.
A grande surpresa foi descobrir que, duas Copas depois de 2014 (12 anos), a seleção brasileira atual continua refém do "complexo dos 7 a 1". São atletas que se
mostraram psicologicamente instáveis, na seleção, ao contrário do que se apresentam
em seus clubes. Não todos, mas no coletivo.
Acrescente-se a isso a pressão, o drama pessoal e o medo de encerrar a carreira numa má
atuação na seleção, como tantas vezes vista; todo esse conjunto geral produz falta de
autoconfiança, baixa inteligência emocional e coisas assim, psicologicamente
complexas, notadamente em atletas jovens e emocionalmente vulneráveis.
As seleções de 2018 e 2022, foram profundamente impactadas pelos 7 a 1 e lá
estavam Neymar (jogou na copa de 2014), Marquinhos e Casemiro, hoje líderes do atual grupo sob o
comando de Ancelotti. Reconheço que posso estar exagerando, mas pessoalmente tenho
receio que, os três (apesar de Neymar não ter jogado) possam ser lideranças, inconscientemente, marcadas pelo
complexo da derrota para a Alemanha.
Agora, caberá a Carlo Ancelotti e à sua assessoria psicológica entender que a raiz do problema é essa instabilidade oculta. Consertar o mental do elenco é o verdadeiro desafio de gestão para os próximos jogos da Copa.
Depois do empate por 1 a 1 com Marrocos no sábado (13), primeira partida da seleção brasileira nesta Copa do Mundo, jogadores da equipe consideraram que a ansiedade da estreia foi responsável pelo péssimo desempenho no começo da partida.
Nos primeiros 30 minutos, os marroquinos dominaram por completo o Brasil, com amplo controle da posse de bola. Os brasileiros mal conseguiam pegar na redonda, ficavam "na roda" – parecia até aquela brincadeira, chamada popularmente de "bobinho"– e, quando o faziam, a perdiam com rapidez, errando passes constantemente.
Jogadores como Lucas Paquetá, Douglas Santos, Igor Thiago e Vinicius Junior, todos titulares na partida, além do treinador Carlo Ancelotti, afirmaram, citando diretamente a palavra "ansiedade" ou não, que a parte mental afetou o funcionamento corporal.
Felizmente para o Brasil, apesar do começo sofrível e do gol sofrido, este em falhas seguidas da seleção (primeiro, Paquetá perdeu a bola; depois, a marcação no meio não conseguiu bloquear lançamento de Brahim Díaz; por fim, Marquinhos e Gabriel Magalhães, mal posicionados, permitiram Saibari receber livre para encobrir Alisson), Vini Jr., em jogada individual, empatou em um belo gol.
A partir daí, com mais de meia hora do primeiro tempo, a ansiedade diminuiu um pouco, passando ao nível de controle. Ancelotti mexeu no time no intervalo, sacando Casemiro e Ibañez, ambos muito mal no jogo e "amarelados", e a equipe, com nervos menos desequilibrados, portou-se melhor – não muito, mas melhor.
O que faltou, depois de a tecla da ansiedade ter sido tão batida, foi alguém ir atrás de Marisa Santiago e perguntar a ela o que aconteceu. Ainda falta.
Marisa Santiago é a psicóloga que acompanha a delegação do Brasil nesta Copa do Mundo. A CBF incluiu a profissional no grupo, penso que para, entre outras coisas, agir para que a ansiedade não se mostrasse tamanha no jogo inicial.
Que é normal ficar ansioso antes de um acontecimento relevante – a Copa do Mundo é, e a partida de estreia é, isso desde sempre –, não é novidade. Por isso mesmo espanta, havendo uma psicóloga a serviço dos atletas, eles terem tido essa dificuldade.
Afinal, a ansiedade supostamente existe dos dois lados, e os marroquinos não sentiram nada. Caso tenha havido apreensão antes de encarar o pentacampeão Brasil, eles deixaram-na no vestiário do estádio MetLife, em East Rutherford, palco do duelo. Estavam livres, leves e soltos.
A experiência internacional dos jogadores da seleção brasileira, que atuam ou atuaram em grandes ligas da Europa (Inglaterra e Espanha, primordialmente), deveria ser suficiente para reduzir o nervosismo. Evidentemente, para alguns, não foi.
Copa do Mundo é diferente, dirão. É mesmo. Mas por que algumas seleções, e alguns atletas, sentem mais, bem mais, que outros?
Sabe-se que a ansiedade pode até ter um lado positivo, tornando a pessoa (neste caso, o jogador) mais alerta e focada antes de um desafio, porém, em dose excessiva, é prejudicial.
Se Marisa Santiago realizou alguma atividade individual ou em grupo, "sessões de terapia", para controlar a ansiedade da equipe, não funcionou. Se não fez, é necessário explicar o motivo.
Com todo o declaratório apontando esse problema, ela tem trabalho considerável nesta semana para deixar o time com a cabeça no lugar. Se não houve ainda intervenção dela, e se não houver, não sei o que está fazendo lá.


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