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Umberto Eco OMRI (Alexandria, 5 de janeiro de 1932 — Milão, 19 de fevereiro de 2016) foi um escritor, filósofo, professor, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano de fama internacional. Foi titular da cadeira de Semiótica e diretor da Escola Superior de ciências humanas na Universidade de Bolonha. Ensinou temporariamente em Yale, na Universidade Columbia, em Harvard, Collège de France e Universidade de Toronto. Colaborador em diversos periódicos acadêmicos, dentre eles colunista da revista semanal italiana L'Espresso, na qual escreveu sobre uma infinidade de temas. Eco foi, ainda, notório escritor de romances, entre os quais "O nome da rosa" e "O pêndulo de Foucault". Junto com o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, lançou em 2010 "N’espérez pas vous débarrasser des livres" (publicado em Portugal com o título "A Obsessão do Fogo", e no Brasil como "Não contem com o fim do livro". (https://pt.wikipedia.org/wiki/Umberto_Eco)


sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Quando o negócio é torturar a língua






Este artigo foi publicado na revista Veja há um bom tempo. É daqueles textos atemporais que sobrevivem sem perder a atualidade. Publiquei no blog, também a algum tempo, e guardei-o em meus "arquivos implacáveis" e agora, ao dar uma pesquisada por lá o reencontrei e resolvi republicá-lo visto que estava tão atualizado quanto antes.

Muito se fala sobre este linguajar meio esquisito dos (sem intenção de generalizar) modernos consultores. Eu mesmo, no meu dia a dia, uso algumas dessas expressões que viraram moda e que a gente vai consumindo quase sem sentir. Lembro do conceito de "paradigma", por exemplo, que eu utilizo muito. Outras, entretanto são verdadeiros "desastres" para a comunicação corporativa.

Via de regra eu evito usá-las. No mais das vezes estas expressões são produtos de modismos de alguns consultores e palestrantes no topo das listas de "mais vendidos" ou "mais procurados". São, às vezes, expressões e conceitos cunhados pelos autores de livros de "gestão requentada"; ou mesmo conceitos em outras línguas - normalmente o inglês - cujas  traduções fogem à nossa cultura. Enfim, recomendo que evitem se utilizar delas de forma exagerada.

Quando sentarem-se à mesa com conselheiros ou mentores que sua empresa contratou para "desenvolver" aqueles "planos de modernização administrativa" que fazem a alegria das contas bancárias deles e os caras começarem a falar este idioma pernóstico caia fora. Fuja, porque esse negócio é contagioso.

Convido-os a ler o artigo que o jornalista Jerônimo Teixeira escreveu para Veja que um dos melhores textos que já li sobre o tema.


Torturando a língua
Quando o negócio é torturar a língua. "Sinergia", "mudança de paradigma", "ação estratégica": segundo um trio de consultores americanos, esse jargão corporativo serve apenas para exprimir a mais pura... idiotice
Autor:Jerônimo Teixeira

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Se duas empresas pertencentes a um mesmo grupo resolvem trabalhar em colaboração para vender melhor seus produtos, esse será apenas um fato trivial no mundo dos negócios. Uma palavra, porém, pode fazer toda a diferença. No lugar de "colaboração", diga "sinergia". As portas do mercado global parecem se abrir. Daí em diante, o céu é o limite: o empresário pode "ajustar seus processos para potencializar um clima organizacional que propicie o ciclo sinergístico".

Isso não quer dizer rigorosamente nada – mas impressiona. Tal estilo pernóstico e vazio permeia grande parte da cultura corporativa. Bobagens palavrosas garantem a boa vida de muito guru empresarial, do tipo que adora fazer palestras com PowerPoint – programa do Windows para apresentações de texto e imagem. 

Os consultores americanos Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky cansaram de tanta besteira. Um livro escrito pelos três pretende pôr fim à embromação e restituir a clareza aos ambientes de negócios. Na busca por uma linguagem transparente, não poderiam ter encontrado um título melhor: Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas (tradução de Alice Xavier; Best Seller; 192 páginas; 24,90 reais).



Os autores identificam um mecanismo de compensação psicológica no gosto dos executivos por esse palavreado que recheia reuniões e reuniões: ele confere uma aura de importância e inovação às realizações mais comezinhas. A empresa passou a trabalhar com um software mais avançado? Será mais emocionante afirmar que houve uma "mudança de paradigma tecnológico". 

O recurso à linguagem empolada, porém, nem sempre é tão inocente. Com frequência, a verborragia está lá para encobrir a negligência, a incompetência e até a fraude. Um exemplo expressivo é a seguinte frase perfeitamente vazia de sentido: "Temos redes robustas de ativos estratégicos dos quais detemos a propriedade ou o acesso contratual, o que nos dá mais flexibilidade e velocidade para, de modo confiável, fornecer soluções logísticas abrangentes". Essa pérola faz parte do relatório anual de 2000 da empresa americana Enron. 

No ano seguinte, a companhia declarou falência depois que se descobriu que sua contabilidade era toda falsificada. Não por acaso, a tendência à linguagem estupefaciente é maior entre as empresas desonestas. Isso é demonstrável na análise das cartas aos acionistas que acompanham os relatórios anuais de grandes corporações. 

Os autores de "Por que as Pessoas de Negócios..." pontuaram esses textos com o índice Flesch, criado nos anos 40 pelo educador de origem austríaca Rudolf Flesch, que indica a clareza da linguagem em inglês. Quanto mais elevada a nota na escala, maior a clareza. Empresas admiradas como o Google, a General Electric e a Amazon pontuaram acima de 40. A Enron ficou com apenas 18..



Maus resultados financeiros, demissões, produtos que falham – a embromação tenta obscurecer qualquer fato desagradável. Veja por exemplo um memorando de Edgar Bronfman Jr., presidente da Warner Music: 

·  "Estamos anunciando hoje uma série de passos necessários à reestruturação e cruciais para o futuro do Warner Music Group. (...) É da máxima importância fazermos, tão logo possível, as mudanças necessárias para que o WMG possa continuar a progredir com redobrada força e confiança, como uma organização mais competitiva, ágil e eficiente". 

O objetivo de todo esse papo-furado era anunciar um corte de 20% do pessoal. Medidas drásticas como essa são muitas vezes necessárias, especialmente em indústrias em crise. Mas encobri-las com eufemismos como "reestruturação" ou "reengenharia" insulta os demitidos.



Talvez o maior vilão de "Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas" seja um programa de computador: o já citado PowerPoint. Muito usado em palestras corporativas, ele é a versão informatizada dos obsoletos projetores de slides e transparências. Com seus modelos padronizados e as facilidades que oferece para o desenho de diagramas e organogramas, tornou-se também o veículo ideal para os clichês empresariais. 

Em 2003, uma equipe de técnicos da Nasa, a agência espacial americana, fez uma apresentação em PowerPoint sobre defeitos estruturais no ônibus espacial Columbia. A exposição alertava para a possibilidade de que pedaços do revestimento dos tanques de combustível se desprendessem e atingissem a nave, causando danos graves. 

Só que a informação estava perdida no meio de uma tela do PowerPoint, entre outras tantas frases irrelevantes e expressões vazias como "dano significativo" ("significativo" compete com "estratégico" pelo lugar de adjetivo mais vago do jargão corporativo). Uma semana depois, o Columbia explodiu ao reentrar na atmosfera terrestre, matando os sete tripulantes. A causa do acidente: pedaços do revestimento que se soltaram. O jargão obscuro, como se vê, não tortura apenas a língua. Pode também fazer vítimas fatais.



Se tiver interesse de ler o artigo em outro site clique aqui e aproveite para ler um trecho de destaque do livro citado no artigo - "Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas", de Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky. 

Um comentário:

  1. Obrigado pelo seu maravilhoso compartilhar! Você é um feito uma grande fonte de linguagem. Para ver ou aprender visita idioma Inglês. aula ingles florianopolis Nossa escola oferece diversos tipos de cursos, regulares e intensivos, para adultos e adolescentes. Preparatório IELTS e Cambridge, aulas particulares, conversação, método eficiente.

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