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sexta-feira, dezembro 11, 2020

Quando o negócio é torturar a língua






Este artigo foi publicado na revista Veja há um bom tempo. É daqueles textos atemporais que sobrevivem sem perder a atualidade. Publiquei no blog, também a algum tempo, e guardei-o em meus "arquivos implacáveis" e agora, ao dar uma pesquisada por lá o reencontrei e resolvi republicá-lo visto que estava tão atualizado quanto antes.

Muito se fala sobre este linguajar meio esquisito dos (sem intenção de generalizar) modernos consultores. Eu mesmo, no meu dia a dia, uso algumas dessas expressões que viraram moda e que a gente vai consumindo quase sem sentir. Lembro do conceito de "paradigma", por exemplo, que eu utilizo muito. Outras, entretanto são verdadeiros "desastres" para a comunicação corporativa.

Via de regra eu evito usá-las. No mais das vezes estas expressões são produtos de modismos de alguns consultores e palestrantes no topo das listas de "mais vendidos" ou "mais procurados". São, às vezes, expressões e conceitos cunhados pelos autores de livros de "gestão requentada"; ou mesmo conceitos em outras línguas - normalmente o inglês - cujas  traduções fogem à nossa cultura. Enfim, recomendo que evitem se utilizar delas de forma exagerada.

Quando sentarem-se à mesa com conselheiros ou mentores que sua empresa contratou para "desenvolver" aqueles "planos de modernização administrativa" que fazem a alegria das contas bancárias deles e os caras começarem a falar este idioma pernóstico caia fora. Fuja, porque esse negócio é contagioso.

Convido-os a ler o artigo que o jornalista Jerônimo Teixeira escreveu para Veja que um dos melhores textos que já li sobre o tema.


Torturando a língua
Quando o negócio é torturar a língua. "Sinergia", "mudança de paradigma", "ação estratégica": segundo um trio de consultores americanos, esse jargão corporativo serve apenas para exprimir a mais pura... idiotice
Autor:Jerônimo Teixeira

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Se duas empresas pertencentes a um mesmo grupo resolvem trabalhar em colaboração para vender melhor seus produtos, esse será apenas um fato trivial no mundo dos negócios. Uma palavra, porém, pode fazer toda a diferença. No lugar de "colaboração", diga "sinergia". As portas do mercado global parecem se abrir. Daí em diante, o céu é o limite: o empresário pode "ajustar seus processos para potencializar um clima organizacional que propicie o ciclo sinergístico".

Isso não quer dizer rigorosamente nada – mas impressiona. Tal estilo pernóstico e vazio permeia grande parte da cultura corporativa. Bobagens palavrosas garantem a boa vida de muito guru empresarial, do tipo que adora fazer palestras com PowerPoint – programa do Windows para apresentações de texto e imagem. 

Os consultores americanos Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky cansaram de tanta besteira. Um livro escrito pelos três pretende pôr fim à embromação e restituir a clareza aos ambientes de negócios. Na busca por uma linguagem transparente, não poderiam ter encontrado um título melhor: Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas (tradução de Alice Xavier; Best Seller; 192 páginas; 24,90 reais).



Os autores identificam um mecanismo de compensação psicológica no gosto dos executivos por esse palavreado que recheia reuniões e reuniões: ele confere uma aura de importância e inovação às realizações mais comezinhas. A empresa passou a trabalhar com um software mais avançado? Será mais emocionante afirmar que houve uma "mudança de paradigma tecnológico". 

O recurso à linguagem empolada, porém, nem sempre é tão inocente. Com frequência, a verborragia está lá para encobrir a negligência, a incompetência e até a fraude. Um exemplo expressivo é a seguinte frase perfeitamente vazia de sentido: "Temos redes robustas de ativos estratégicos dos quais detemos a propriedade ou o acesso contratual, o que nos dá mais flexibilidade e velocidade para, de modo confiável, fornecer soluções logísticas abrangentes". Essa pérola faz parte do relatório anual de 2000 da empresa americana Enron. 

No ano seguinte, a companhia declarou falência depois que se descobriu que sua contabilidade era toda falsificada. Não por acaso, a tendência à linguagem estupefaciente é maior entre as empresas desonestas. Isso é demonstrável na análise das cartas aos acionistas que acompanham os relatórios anuais de grandes corporações. 

Os autores de "Por que as Pessoas de Negócios..." pontuaram esses textos com o índice Flesch, criado nos anos 40 pelo educador de origem austríaca Rudolf Flesch, que indica a clareza da linguagem em inglês. Quanto mais elevada a nota na escala, maior a clareza. Empresas admiradas como o Google, a General Electric e a Amazon pontuaram acima de 40. A Enron ficou com apenas 18..



Maus resultados financeiros, demissões, produtos que falham – a embromação tenta obscurecer qualquer fato desagradável. Veja por exemplo um memorando de Edgar Bronfman Jr., presidente da Warner Music: 

·  "Estamos anunciando hoje uma série de passos necessários à reestruturação e cruciais para o futuro do Warner Music Group. (...) É da máxima importância fazermos, tão logo possível, as mudanças necessárias para que o WMG possa continuar a progredir com redobrada força e confiança, como uma organização mais competitiva, ágil e eficiente". 

O objetivo de todo esse papo-furado era anunciar um corte de 20% do pessoal. Medidas drásticas como essa são muitas vezes necessárias, especialmente em indústrias em crise. Mas encobri-las com eufemismos como "reestruturação" ou "reengenharia" insulta os demitidos.



Talvez o maior vilão de "Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas" seja um programa de computador: o já citado PowerPoint. Muito usado em palestras corporativas, ele é a versão informatizada dos obsoletos projetores de slides e transparências. Com seus modelos padronizados e as facilidades que oferece para o desenho de diagramas e organogramas, tornou-se também o veículo ideal para os clichês empresariais. 

Em 2003, uma equipe de técnicos da Nasa, a agência espacial americana, fez uma apresentação em PowerPoint sobre defeitos estruturais no ônibus espacial Columbia. A exposição alertava para a possibilidade de que pedaços do revestimento dos tanques de combustível se desprendessem e atingissem a nave, causando danos graves. 

Só que a informação estava perdida no meio de uma tela do PowerPoint, entre outras tantas frases irrelevantes e expressões vazias como "dano significativo" ("significativo" compete com "estratégico" pelo lugar de adjetivo mais vago do jargão corporativo). Uma semana depois, o Columbia explodiu ao reentrar na atmosfera terrestre, matando os sete tripulantes. A causa do acidente: pedaços do revestimento que se soltaram. O jargão obscuro, como se vê, não tortura apenas a língua. Pode também fazer vítimas fatais.



Se tiver interesse de ler o artigo em outro site clique aqui e aproveite para ler um trecho de destaque do livro citado no artigo - "Por que as Pessoas de Negócios Falam como Idiotas", de Brian Fugere, Chelsea Hardaway e Jon Warshawsky. 

Um comentário:

  1. Obrigado pelo seu maravilhoso compartilhar! Você é um feito uma grande fonte de linguagem. Para ver ou aprender visita idioma Inglês. aula ingles florianopolis Nossa escola oferece diversos tipos de cursos, regulares e intensivos, para adultos e adolescentes. Preparatório IELTS e Cambridge, aulas particulares, conversação, método eficiente.

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