Envelhecer é uma experiência curiosa. O tempo vai deixando suas marcas, algumas visíveis, outras nem tanto, e aos poucos nos obriga a rever a maneira como olhamos para a vida — e para nós mesmos.
O belo texto abaixo, de autoria que infelizmente desconheço, trata desse encontro com o passar dos anos com uma combinação rara de humor, delicadeza e sabedoria. Não lamenta o tempo que passou nem tenta disfarçar suas inevitáveis consequências. Ao contrário: convida-nos a perceber que há ganhos que só chegam quando já caminhamos bastante.
Li, sorri, reconheci algumas situações e, sobretudo, gostei da serenidade que ficou depois da última linha.
Compartilho porque envelhecer é privilégio de quem vive — e aprender a envelhecer talvez seja uma das mais interessantes experiências da própria vida.
Boa leitura.
☯ ☯
* Crédito da imagem ao final do post
☯ ☯
A Idade em Que o Tempo Senta à Mesa
(Autor desconhecido)
Existe uma fase da vida em que o espelho começa a nos tratar com uma sinceridade quase ofensiva.
Os cabelos debandam discretamente. Os joelhos passam a emitir boletins sonoros. A memória, às vezes, resolve brincar de esconde-esconde justamente com o nome daquela pessoa que acabamos de encontrar no supermercado.
E há também o fenômeno mais cruel de todos: levantar da cadeira emitindo um “opa!” involuntário… como se a coluna precisasse de autorização verbal para funcionar.
Mas talvez exista uma beleza secreta nisso tudo.
Porque, enquanto o corpo vai lentamente negociando limites com o tempo, a alma — curiosamente — começa a ficar maior.
Mais generosa. Mais paciente. Mais humana.
Chega uma hora em que você já não tem mais pressa de vencer discussões no WhatsApp. Deixa o outro ter razão, porque descobriu que a paz é incomparavelmente mais barata do que a razão.
Você para de tentar impressionar quem não se importa e passa a valorizar, de verdade, quem fica quando as luzes se apagam.
A gesticulação muda. As urgências sossegam. O café esfria um pouco mais na xícara enquanto você simplesmente olha pela janela, sem a menor culpa por não estar fazendo nada produtivo.
É a idade em que o tempo, aquele antigo carrasco do relógio, finalmente aceita o nosso convite e senta-se à mesa para tomar um café com a gente.
Não como inimigo. Mas como companheiro de jornada.
☯ ☯

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Convido você, caro leitor, a se manifestar sobre os assuntos postados na Oficina de Gerência. Incentivo ao debate, à informação, à diversidade de opiniões. Obrigado.