A cada grande invenção impactante, a humanidade repete um ritual: primeiro se espanta, depois imagina os perigos e, aos poucos, aprende a conviver com a novidade. Não foi diferente com o avião de Santos Dumont; mais recentemente, vimos algo semelhante com os drones. Os russos já criaram os drones a jato!
A inteligência artificial, porém, nos coloca diante de uma pergunta particularmente íntima:
- Até onde estamos dispostos a entregar a uma tecnologia a condução de tarefas da nossa própria vida?
A reportagem (New York Times/Folha de São Paulo) que compartilho a seguir oferece um retrato intrigante dessa pergunta. Durante duas semanas, o jornalista Eli Tan experimentou um agente de IA da Meta capaz de fazer ligações, organizar informações e tomar providências a seu pedido. O resultado o impressionou. Mas, para obter tamanha ajuda, precisou abrir ao agente as portas de seu e-mail, de suas contas e de parte de sua rotina.
Leio essa experiência sem vontade de anunciar uma catástrofe nem de aplaudir a novidade de olhos fechados. Sinto curiosidade, fascínio e orgulho do que a inteligência humana consegue criar; sinto também o peso das perguntas que vêm com essa criação. Talvez este seja o verdadeiro desafio do nosso tempo: aprender a usar instrumentos cada vez mais poderosos e surpreendentes sem abrir mão do nosso discernimento sobre o que podemos confiar a eles?
O futuro da IA ainda guarda mistérios, mas não precisamos esperar por todas as respostas para começar a fazer boas perguntas. Que tarefas queremos confiar a esses agentes? Que informações estamos dispostos a compartilhar? E, sobretudo, como garantir que a decisão final continue sendo nossa? É com esse espírito — aberto às possibilidades e atento às consequências — que convido você a ler a experiência relatada a seguir.
O vídeo abaixo está integrado à matéria, na Folha. É uma entrevista interessantíssima, com o colunista da FSP, Ronaldo Lemos, especialista em IA. É longa — 53:23 — mas vale a pena. Um aprendizado.
São Francisco (Califórnia)|The New York TimesNa semana passada, atendi a uma ligação de um número desconhecido. "Consegui falar com a Anthem Dental e estou prestes a transferir a ligação para você", anunciou uma voz.
A chamada vinha de um "agente" de inteligência artificial criado pela Meta, dona do Facebook e do Instagram. Dez minutos antes, o agente de IA havia ligado para a minha operadora de plano odontológico, informado meu número de beneficiário, respondido a uma pergunta de segurança e aguardado na linha antes de me transferir para o atendente — exatamente como eu havia pedido.
Fiquei surpreso com o quanto o agente havia facilitado a interação com a seguradora. Essa foi uma das muitas tarefas que realizei com o Muse, o aplicativo de agente de IA que a Meta apresentou neste mês.

O Muse é o primeiro agente de IA voltado ao consumidor, desenvolvido por uma grande empresa de tecnologia, a se tornar disponível ao público. O setor de tecnologia vê os agentes como a próxima fronteira, muito mais capazes do que os chatbots. Eles podem navegar pela internet, entrar em sites, preencher planilhas e fazer ligações em nome das pessoas — e isso é apenas o começo...
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